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Mapear e mediar: as relações como ponte para os dados

  • latenterevista
  • Aug 4
  • 10 min read

Isadora Ifanger, Maíra Schiavinato e Paula Monterrey


Em 9 de abril de 2025, reunimo­-nos para trocar sobre o Mapeamento de Agentes Culturais com Deficiência de Campinas, que realizamos em 2024. O projeto teve como objetivos identificar e conectar agentes, reconhecer parte da vivência cultural das pessoas com deficiência no município e levantar dados que pudessem encorpar o debate sobre políticas públicas de acessibilidade cultural e, sem dúvida, consolidou­ se como um processo de educação comunitária, pelo importante exercício de articulação entre as pessoas participantes e de mediação entre pares do setor cultural local.


Mais que o balanço de um projeto, essa conversa é parte do turbilhão que nos acompanha enquanto formamos parte de um processo mais amplo, atravessado pelo fortalecimento do movimento nacional de artistas DEFs1 e pelo mapeamento federal Acessa Mais (2), uma realização da UFBA junto ao MinC, em responsabilidade a episódio capacitista (3) no lançamento da Lei Paulo Gustavo (LPG).

Essa reunião sincroniza­-se, de forma não planejada, com a ampliação dos debates públicos sobre acessibilidade no setor cultural, acarretados pela obri­gatoriedade da LPG de destinação de 10% dos orçamentos para a pauta, e, no nosso território, com a conquista das cotas para pessoas com deficiência nos cursos de graduação da Unicamp, pelo Coletivo Anticapacitista Adriana Dias.



Maíra Schiavinato
Maíra Schiavinato. Produção de Elefantes, 2024. Fotografia: Arquivo Pessoal


Em meio a tudo isso, percebemos:


Maíra Schiavinato (MS): o mapeamento foi muito legal, no sentido de ampliar redese nos conhecermos. No Papo DEF, podcast que produzimos, foi diferente a interação com as pessoas que participaram. Conseguimos manter contato, fazer amizade...


Paula Monterrey (PM): É a diferença entre levantar dados e construir rede, né?


Isadora Ifange (II): Sim, essas redes de convite e de troca têm sido muito importantes. Trazer para a cena profissional alguém que participou do mapeamento. Conseguir contratar as pessoas que o projeto alcançou. Foi esse, vejo, o sentido mesmo da ação prática, de consolidar uma mudança no cenário cultural.


PM: As gravações foram realmente uma metodologia que criou vínculos, comparada ao questionário.É muito interessante ver projetos que se desdobram daí, como os de Fer Albino (4) de Vinhedo, escrevendo projetos para os editais, ou a Kátia Fonseca (5), participando dos cursos de audiodescrição do Cinema em Palavras (6) e querendo trocar sobre acessibilidades para o último livro que ela publicou.


MS: A Ana Bia Watanabe (7) é uma pessoa muito ativa na para dança que estava muito distante do Coletivo e, depois do mapeamento, está mais envolvida.


II: Percebo que nossas metodologias e a construção que fizemos nesse projeto tiveram efeito e estão sendo utilizadas como base para outros projetos semelhantes. Com a Fer, vou gravar este ano um podcast lá em Vinhedo, com outros artistas com deficiência.



Mapeamento de Agentes Culturais com DeficiênciaSala dos Toninhos, 2024. Fotografia: Gabriela Zanardi
Mapeamento de Agentes Culturais com DeficiênciaSala dos Toninhos, 2024. Fotografia: Gabriela Zanardi

MS: Pensando em nível nacional, tem também o Acessa Mais. Preenchendo o questionário do mapeamento nacional, vi coisas muito semelhantes ao mapeamento daqui. Eu acho que isso deve ter vindo muito desse diálogo com o Edu O. (coordenador).


PM: Sim, ele participou da banca de mestrado da Isadora8 em 2024, e dessa relação estabelecemos trocas para fazer uma reunião conjunta. No âmbito municipal, lembro a importância de quando fomos para a OMG Cultural (9) e as pessoas DEFs que estiveram presentes na atividade, mas não participaram do questionário. Me instiga pensar nesses espaços de “ausência” de dados. As áreas da cidade que a gente não alcança.


MS: Acho que tem muito desse lugar de pertencimento. Muita gente que eu acredito que é agente cultural não se vê dessa forma.


II: Acho que as terminologias que usamos no mapeamento podem se expandir.Não necessariamente afirmar: “Ah, você é um agente cultural.” Mas sim: “Quero ouvir você falar sobre o seu movimento social.” E dentro desse movimento social da pessoa – que às vezes nem ela mesma percebe como cultura –, está o movimento cultural que a gente, como coordenação, identifica nesse processo. E no diálogo

a gente vai descobrindo coisas.


MS: Diálogo este que, quando entramos em contato com instituições, em vez de com pessoas, acabamos não conseguindo ter. As instituições são sempre uma preocupação. Não só pelo recorte assistencialista, mas porque a conversa nunca é direto com a pessoa DEF, sempre existe um intermediário. A gente teve esse sentimento na pesquisa, quando chegamos às instituições, pois nem sempre mandavam o questionário para o público. A gente chegou a ouvir: “Não, espere aí. Como assim, tem pergunta sobre gênero?”. E ainda: “Os pais das pessoas que frequentam aqui não estão confortáveis com

isso.” A pesquisa passou pelo filtro da instituição e pelo filtro da família para chegar às pessoas que, no caso do projeto, eram todas maiores de idade!


II: Acessar as pessoas que estão dentro das instituições e conseguir dialogar com um indivíduo talvez seja um caminho para avançar nessas trocas. Tentar burlar as burocracias das instituições e ver se rolam essas discussões. Sabemos que vai ter bastante atrito. Mas acho que essa preocupação e incômodo é para que as pessoas sejam vistas como indivíduos. Por exemplo, durante a produção de eventos pensar: “Queremos que tenha público de pessoas com deficiência, porque a gente está sendo acessível”. Nesse momento, chamam a instituição para garantir número de atendimentos. Mas qual é a troca que o trabalho tem com as pessoas?



O mapeamento de agentes culturais com deficiência teve início em 2022 dentro de pesquisas em direitos culturais de Paula Monterrey junto ao coletivo Câmara Temática Inclusão na Diversidade, coordenado por Maíra Schiavinato. O encontro com as discussões sobre a Cultura DEF, cuja pesquisa deIsadora Ifanger se dedica, provocou o mapeamento a firmar seu compromisso com os direitos, mas também com a prática coletiva e autônoma, e o fazer cultural de pessoas DEFs. O que nos levou em 2024 a compartilharmos a coordenação do projeto entre as três. Fizemos um exercício de revisitar trabalhos da nossa trajetória que antecederam esse projeto:



Maíra Schiavinato

Quando era pequena, apesar de ser uma pessoa com deficiência, eu não me reconhecia nesse lugar.A deficiência era ignorada pela família e pela escola; com isso, cresci tendo de fazer coisas além do meu limite. Só mais tarde eu fui percebendo que trabalhos que eu já havia feito tinham a ver com a cultura DEF. A produção começou com esculturas, porque para mim “as esculturas são poesias tridimensionais”,e eu gosto de escrever. Mas, na escrita, você não consegue tocar

as coisas; e, para uma pessoa com deficiência visual, o toque é uma parte sensorial grande da percepção.


Com o tempo fiz várias produções de pequenos elefantinhos de argila, estilizados, em diferentes posições, e os levei para diversos lugares, como um convite, visando exercitar a percepção da sociedade frenética. “Elefantes” colocados no chão, pisoteados por passantes tão envoltos em seus próprios universos que não notam os “gigantes” no caminho. Uma constatação de que apenas pessoas atentas reconhecem os detalhes da vida... Fiz também outras esculturas que remetem

a formas parcialmente abstratas, ou como eu as chamo, “não formas”. Corpos que se dissolvem em massas e, apesar de parecerem incompletos, trazem nuances de movimentos e ações. Seres que buscam se libertar das próprias fronteiras e se expandir para além das barreiras do mundo.

Para mim, isso dialoga muitonão só com os elefantes, mas também com o corpo DEF, com o reconhecimento, com como somos vistos pela sociedade e a beleza dessas formas, independentemente de elas não serem o estereótipo padrão ou, como diria a Isa, de “um corpo normativo padrão”. E essa pesquisa veio naturalmente, antes de entender o movimento político e o que eu estava sentindo com aquilo.


A ideia de conversar sobre as diferentes formas de estar no mundo, as belezas dessas formas, e às vezes as invisibilidades, tem a ver com o território, com a construção de identidade e pertencimento da pessoa com deficiência na sociedade. Desde que a gente começou a fazer o mapeamento, minha vontade é espalhar elefantes e criar conexões. Dá vontade de pegar a linha da Isadora e conectar os elefantes pela cidade.



Maíra Schiavinato
Mavi. Obra Elefantes, 2005-2024. Intervenção Urbana Fotografia: Arquivo Pessoal.

Isadora Ifanger


Para mim, a identificação como artista DEF está muito na relação com o outro, em estar em coletivo com outros artistas DEFs e pensando esse movimento. Ao longo da minha formação, não tive contato com outras pessoas DEFs. Quando era mais jovem, os trabalhos manuais sempre me interessaram. Aprendi a bordar aos 10 anos, com um grupo de senhoras em uma cidadezinha do interior e fofocando muito. Eu sempre brincava com a produção de figurinos e fantasias. Tinha uma cabecinha atípica bem fantasiosa, e a elaboração de outras imagens começou nesse lugar. No mestrado, retomei o bordado.O trabalho manual me ajuda nesse processo de foco. Enquanto estavanas pesquisas do mestrado, não conseguia ficar só na escrita. Nesse deixar as linhas irem conversando com as imagens da minha cabeça, nasceu esse bordado que dá início ao processo do DEFORMA10. É um bordado de linhas vermelhas, em que a gente tem, de um lado – no canto superior direito – , um encontro, com as raízes se aproximando do centro, e – no canto inferior esquerdo – umas teias de aranha também se aproximando do centro. Uma identificação no centro é uma mariposa. Essa é uma imagem quase religiosa para mim, das minhas próprias fés.


Eu represento a mariposa também com uma perninha DEF. Com cicatrizes, assim como meu corpo. São ideias táteis, pensando nas múltiplas possibilidades de acesso ao material.

A partir das imagens do bordado, eu descrevo; e, a partir dessas descrições de imagens, eu construo as ideias do que quero como pesquisa. O DEFORMA nasce nessa expansão como meu projeto de cena. Um projeto que dialoga diretamente com as pessoas.


Durante a performance, sou a agulha que vai traçando essas linhas, e quase que o espaço vira um grande bordado desse traçado de linhas. A diretora Estela Lapponi brinca que eu sou “corpo agulha”. Ela também é artista DEF, entre outras artistas que eu estava em diálogo no mestrado e me ajudaram para que esse material se consolidasse da forma como é. Sozinha, seria diferente. Vai além dos ensaios. Às vezes, é a cerveja que a gente toma depois para falar sobre as coisas da vida que vão trazendo essa complexidade. De se entender como artista DEF.



Isadora Ifanger
› Isadora Ifanger. Entre Teias e Raízes. Bordado, 2023. Fotografia: Nina Pires

Paula Monterrey

É um trabalho que fiz em 2018. São vistas aéreas da região do centro de Campinas, onde morei por oito anos. Nesse mapa, tem furos. E em cada peça, tem um brinco de ouro. É o par de brincos que furaram minhas orelhas quando eu nasci. “O brinco de ouro da Princesa” é o nome popular de um dos estádios do entorno, que surgiu de como Campinas era conhecida antigamente, “Princesa do Oeste”. Queria provocar essa normatividade de gênero, imposta no nascimento, e essa feminilidade monárquica que inspira símbolos da cidade, contrapondo conflitos e disputas, com os pontos de trabalho sexual, de mulheres cis e trans que fui mapeando na convivência comas pessoas e o bairro.

Quando entrei na faculdade, eu me interessei muito pelos trabalhos que discutiam a cidade e os mapas.


Não imaginava que, em algum momento, faria um mapeamento formal de levantamento de dados.

Foi como educadora numa exposição de arte em 2017 que tive contato com a acessibilidade cultural. Não estudei Libras na licenciatura. As disciplinas também eram muito estereotipadas.

Então, trabalhar com uma equipe com intérpretes e educadoresDEFs foi transformador. Mas me fez perceber que não seriam suficientes apenas os conhecimentos técnicos para o que costumamos pensar como formação de público. No movimento social junto à Câmara Temática Inclusão na Diversidade, acabei percebendo que esse envolvimento era fundamental para uma mediação cultural transformadora no interior. Mapear é a extensão disso, é buscar se envolver com o território e ainda mais pessoas.



Paula Monterrey
Paula Monterrey, Brinco de Ouro da Princesa, 2018. Impressão fotográfica sobre madeira e ouro. Fotografia: Arquivo Pessoal


NOTAS

1 DEF: gíria que se tornou termo criada porCarolina Teixeira de Natal (RN), pesquisadora e doutora em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia, , artista DEF, ex-integrante do grupo Roda Viva e escritora do livro Deficiência em cena. É um termo utilizado na identificação de pessoas com deficiência que se orgulham de ser o que são.

2 Os resultados até o momento não foram publicizados, mas as pessoas interessadas podem acompanhar o desdobramento do Mapeamento Acessa Maisem: https://www.instagram.com/mapeamentoacessamais/.

3 Vídeo da performance QUEDA, que discute o episódio: https://www.instagram.com/reel/ CsXkQf5NJ7l/?igsh=aGlneHkwaXA1Z2Iz.

4 Confira a entrevista completa com Ferzinha Albino aqui: https://youtu.be/CXntYVU4cZE?si=lZ4ioPFyy6TD74kq.

5 Confira a entrevista completa com Kátia Fonseca aqui: https://youtu.be/w5IvInQXoUQ?si=xvFJ8OnOJkjWe1UC. 6 Projeto executado em 2024 sobre o histórico do desenvolvimento da audiodescrição em Campinas, para mais informações: https://www.cinemaempalavras.org/.

7 Confira a entrevista completa com Ana Biaaqui: https://youtu.be/OJiY4PbCjxk?si=PW_ntPmCD1cfA4aS

8 Dissertação DEFORMA: Perspectivas ancestrais e culturais através de um corpo def, defendida no curso de Mestrado Profissional em Artes da Cena - Turma especial/ Laboratório em Artes e Mediação Cultural, pela Escola Célia Helena em parceria com o Itaú Cultural.

9 Conheça mais sobre a OMG Cultural aqui: https://www.instagram.com/omgcultural/.

10 Deformar: termo relacionado e apropriado a partir da deformidade de nosso próprio corpo com deficiência e que aqui significa romper, rasgar, transformar ideias naturalizadas pelos bípedes. Para conhecer mais sobre o projeto DEFORMA, acesse aqui:



Autoras


Isadora Ifanger Artista DEF, atriz formada em Artes Cênicas pela Unicamp, mestra em Artes da Cena pela escola Célia Helena, em parceria com o Itaú Cultural, onde realizou a pesquisa intitulada Deforma: perspectivas ancestrais e culturais através do corpo DEF. É audiodescritora e produtora cultural com foco em acessibilidade, coordenando uma equipe formada por profissionais com deficiência. É gestora na frente de acessibilidade e cultura DEF do espaço de ocupação cultural Sala dos Toninhos – Rede Usina Geradora de Cultura, em Campinas (SP). Em 2023, teve sua estreia com o espetáculo solo Inunda-me, com direção de Gabriela Ramos. Em 2025, apresenta Deforma, com direção de Estela Lapponi, sendo a performance resultado de sua pesquisa de mestrado. Ambos os espetáculos estão em circulação neste ano.


Maíra Schiavinato Massei . Artista DEF, consultora, produtora de acessibilidade cultural, escritora e coordenadora de Câmara Temática Inclusão na Diversidade, pertencente à Câmara Setorial de Cidadania Cultural. É graduada em Artes Plásticas e tem especialização em Fotografia e Gravura em Metal pela UEMG. Estudou Cinema Nacional na UFMG e Desenho, Pintura e Escultura no Dundee College, na Escócia, Reino Unido. Cursou Acessibilidade para Gestão Cultural no Sesc CPF e Laboratório de Gestão Pública da Cultura e o de Gestão de Produção Cultural no Observatório da Diversidade Cultural. Foi presidente do Fórum Permanente de Cultura de Campinas e conselheira de Cultura. Participou de exposições e teve ilustrações e fotos publicadas em livros e revistas. Produziu feiras culturais, com workshops e exposições de cultura DEF, e congressos sobre cultura e acessibilidade; coordenou projetos aprovados pelo ProAC e pela LPG; organizou diversas lives e ações voltadas à conscientização social e à Cultura DEF. Hoje é conselheira no Conselho de Política Cultural e no Conselho dos Direitos da Pessoa com Deficiência, na cidade de Campinas (SP).


Paula Monterrey . Gestora cultural independente, mediadora cultural e artista educadora. Graduada em Artes Visuais pela Unicamp (2012-2017) e especialista em Gestão Cultural pela Universidade Nacional de Córdoba (Argentina, 2022-2023).Pela Produções Tortas (@torta.arte), dedica-se ao desenvolvimento de projetos culturais no interior paulista, tendo como foco os direitos culturais, a arte-educação e a acessibilidade cultural. Coordenou educativos de exposições independentes e itinerâncias da Pinacoteca do estado de São Paulo, do Museu de Arte Moderna de São Paulo e Museu Catavento no Instituto CPFL-Campinas. Foi coordenadora de acessibilidade da 2aMostra Curta Social (2023) e do 18o Feverestival – Festival Internacional de Teatro de Campinas (2024). Em 2024, coordenou o 1o Mapeamento de Agentes Culturais com Deficiência da região de Campinas (ProAC) e as ações de comemoração dos20 anos do Cinema em Palavras (LPG), projeto voltado à audio- descrição no cinema. Em 2025, dedica-se como educadora na itinerância do 38o Panorama da Arte Brasileira no Sesc Campinas, como coordenadora de acessibilidade da 18a MostraCurta, e é uma das idealizadoras do projeto Repertório Aberto (ProAC), voltado à vinculação da população de Campinas como Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC).

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