Arpilleras –o sensível como aprendizagem, cooperação e luta
- Célia Barros

- 11 de dez. de 2025
- 8 min de leitura
— por Célia Barros
Em tempos de emergência climática e pós-pandemia, beirando o colapso do modelo energético atual, mantido pela irresponsabilidade social de um sistema capitalista e patriarcal, pode a arte tensionar uma visão extrativista, produtivista e individualista da vida para propor outras formas de existência? Qual é o poder desse gesto que se materializa de formas tão diversas? Que transformações são possíveis quando as práticas criativas se inserem nos circuitos artísticos dialogando com um mercado que reproduz as técnicas de apagamento e silenciamento das singularidades?
Arpilleras surge nesse debate, como uma metodologia para a transformação. Talvez, a frase tantas vezes repetida sobre a possibilidade de a arte transformar o mundo possa ser reformulada para: “Arpilleras, nas mãos das mulheres atingidas, organizam e lutam coletivamente pelo direito à vida –arpilleras transformam”.
Quem nos propõe esta formulação é o coletivo de mulheres do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), que articula a luta das mulheres atingidas por danos materiais ou imateriais diretamente ligados a estas estruturas de risco, mantidas por grandes empreendimentos, nas diferentes regiões do país. Coletivo, este, que se organiza com ganho de força política, promove ações de denúncia e resistência e que, desde 2013, inspira-se no movimento das arpilleras chi- lenas –arte de contestação em tecido rústico– para criar uma metodologia de aprendizagem, participação política, cooperação e defesa dos direitos humanos.
As mulheres são as principais atingidas por desastres climáticos e tragédias causadas pela operação, da construção ao rompimento, de barragens que, implantadas, repetidamente geram desestruturação comunitária, impactando vidas e violando direitos das famílias.
Este foi o tema, inclusive, do coletivo nas ações do IV Encontro Internacional dos Atingidos por Barragens –que coincidiu com a COP30, também em Belém, em novembro– e nas exposições internacionais desenvolvidas em parceria com a horinzont3000 (organização austríaca pela cooperação para o desenvolvimento).

São as mulheres quem mais tem sentido na pele os impactos tanto da construção e operação das barragens, seja de água ou de energia, como dos crimes relacionados ou dos rompimentos dessas barragens no Brasil. São também as mulheres que têm sido atingidas de forma especial pelas mudanças climáticas. Mas são elas, ainda, que estão à frente da luta, fortalecendo as denúncias, e da liderança e organização do movimento como um todo, apesar de sistematicamente invisibilizadas — Dani Hohn, coordenadora nacional do MAB
Na exposição When Fabric Speaks: Arpilleras from the Amazon (1), que inaugurou dia 01 de outubro de 2025, em Viena (Áustria), são apresentadas 13 peças que tratam da Amazônia, uma que aborda a última grande cheia no Rio Grande do Sul e uma obra das mulheres atingidas em São Paulo.
Desde que foi criado, nos anos 1980, o MAB enfrenta as ameaças e agressões a que são expostas as comunidades rurais na implantação de projetos de hidrelétricas. Além de defender os direitos dos atingidos, ele reivindica um Projeto Energético Popular que altere radicalmente as estruturas injustas, discutindo e propondo um novo plano para o país neste sentido, que garanta, entre outros itens, utilização de fontes alternativas de geração de energia, com acesso garantido a todos e com tarifas populares para os consumidores familiares (2).
O adjetivo "atingido" enfatiza as consequências danosas da implantação das barragens numa lógica em que a energia é vista como mercadoria. Para as empresas interessadas em lucros extraordinários, os direitos humanos e o meio ambiente são meros empecilhos para suas construções (nesse sentido, todos somos atingidos enquanto consumidores e cidadãos,
e é por isso que na Cúpula dos Povos (3) o MAB participa especialmente do Eixo 3, que discute a transição energética justa e popular –na busca por evitar que a mudança energética penalize comunidades e na defesa de alternativas de desenvolvimento comprometidas com a justiça social).
O coletivo de mulheres do MAB nasce da percepção de que existem violações de direitos que vulnerabilizam mulheres especificamente pela questão de gênero. Demandas, estas, que têm sido expostas em processos pedagógicos de auto-organização propostos pelo movimento que, de forma participativa, documenta e denuncia esses abusos (com encontros regionais e estaduais desde 2011, tendo realizado, em 2015, o I Encontro de Mulheres Atingidas em Brasília).
As primeiras oficinas de arpilleras, facilitadas pela ativista espanhola Esther Vital, foram realizadas em 2013, como metodologia para formação política e coletiva das mulheres atingidas (4).
A técnica do bordado sobre serapilheira (tecido rústico), criada pelas mulheres chilenas para romper o silêncio durante a ditadura de Pinochet (1973-1990), foi estruturada dentro do coletivo brasileiro para promover debate, aprendizagem, autonomia e pertencimento. Desta forma, surgem algumas regras fundamentais para introduzir um diferencial no modo de operar e dialogar com as ferramentas do sensível e com a criatividade: as arpilleras do MAB são sempre coletivas, fruto do debate de grupos de cinco a seis mulheres, mas também de toda uma organização que fomenta, organiza e promove a visibilidade desse trabalho. Mais do que arte ou artistas, elas são sempre arpilleras: uma linguagem que permeia o vazio do horror para se tornar visível e dizível.
A vida das mulheres, depois que uma grande obra chega à região em que moram, transforma-se radicalmente. Em Barra Grande, Santa Catarina, onde uma barragem foi implantada no início dos anos 2000, cerca de 200 crianças, à época, nasceram sem saber quem eram os pais, um reflexo do comportamento de trabalhadores desses grandes empreendimentos, que se deslocam entre construções abandonando jovens, adolescentes e mulheres com filhos. A indústria da prostituição caminha com a indústria da obra: em Estreito, no Tocantins, logo ao início da implantação, em 2007, já existiam 200 prostíbulos na portada obra. Em Rondônia, foram usados cartões “vale-amor”: os peões recebiam R$ 600 de crédito para gastar na casa de prostituição da próxima obra.

Muitas vezes, com a recepção dos operários para a construção das barragens, uma cidade chega a quadruplicar seu número de habitantes, vendo multiplicar, também, as casas de sexo locais. E como a quantidade de peões é muito maior que a de mulheres que trabalham nos prostíbulos, aumentam, também, as incidências de crimes de pedofilia e a indução à prostituição. (SILVA, 2022)
Ainda, com o deslocamento forçado das comunidades, desarticula-se também a rede de apoio feminina, pois são perdidas as conexões familiares e vicinais que auxiliam no cuidado da casa e dos filhos, prejudicando
a autonomia e a renda das mulheres diretamente atingidas por barragens.
É importante salientar que apesar da grandiosidade dos empreendimentos, raramente são garantidos acessos a água e energia aos principais afetados pelas obras, ampliando a vulnerabilidade social destas pessoas e sobrecarregando o trabalho das mulheres que lidam diretamente com os afazeres domésticos. Vale lembrar que o Brasil tem a quinta maior tarifa de energia elétrica do mundo, aumentando o lucro das empresas e fragilizando a já precária renda familiar.

Após conflitos desta gravidade, torna-se fundamental a reconstrução do tecido social, abordando as conexões invisíveis que foram danificadas para alcançar, assim, o epicentro dessas chagas. Isso implica compreender as percepções que a parte atingida tem sobre suas relações e a forma como elas podem ser reerguidas. Essa tessitura permite que as pessoas se engajem ativamente no processo de mudança, redefinindo suas concepções para construir uma nova territorialidade.
Quando o movimento adotou a técnica das arpilleras como um instrumento de denúncias, optou-se pela elaboração coletiva desde a escolha dos materiais até o próprio desenho das artes, permitindo, neste diálogo, elaborar possíveis soluções para conflitos em comum de ordem econômica, social e cultural.
Para Esther Vital, “o coletivo de mulheres do MAB não nasceu com as arpilleras; ele se potencializou, achando uma linguagem para poder se comunicar, tanto dentro do movi- mento quanto pra fora, transmitindo uma mensagem e tecendo uma organização. (...) O que essas mulheres precisavam falar era insuportável de ser dito. Acredito que a linguagem verbal, às vezes, tem uma especificidade tão concreta que, em certas ocasiões, limita-nos, mas chega uma hora em que você está fazendo a arpillera e, de repente, é ela que te fala o que precisa ser colocado”. As arpilleras são uma forma de dizer de outra maneira; elas atuam como um elemento mediador entre os processos traumáticos e a possibilidade de compreender interna e coletivamente os abusos sofridos.
Foi nas oficinas de arpilleras realizadas durante o I Encontro Nacional do Coletivo de Mulheres, em 2015, que se desenvolveu todo um trabalho de documentação em forma de denúncia, formatado num dossiê entregue em várias instituições, pro- pondo uma série de recomendações. Paralelamente, as arpilleras tornam o fato exposto visível e dão a ele a materialidade necessária para fortalecer a criação de marcos jurídicos que regulem e fiscalizem a atuação das empresas junto às populações afetadas.
Ao todo, hoje existem mais de 300 arpilleras em um acervo que o MAB disponibiliza em versão virtual (5) e que continua recebendo atualizações, circulando também em formato
de exposição presencial pelos diversos espaços que o movimento entende como lugares de luta, visibilidade e consciência política.
Ao contrário das arpilleras chilenas que comercializavam suas peças, para o coletivo de mulheres do MAB foi importante eliminar qualquer expectativa de geração de renda, evitando possíveis limitações na criatividade e no que precisa ser expressado. Estas artes, portanto, não são comercializáveis nem estão à venda. Podem ser doadas e constituir coleções, entendidas como patrimônio e acervo cultural, mas se dissociam de possíveis lugares mercadológicos, inviabilizando a imposição de um valor comercial e negociável.
As arpilleras não são redutíveis a um produto: são parte de um imenso processo, uma metodologia de educação popular feminista que revoluciona as mulheres envolvidas na sua feitura e organização, mobilizando-nos enquanto sociedade.
REFERÊNCIAS:
BACIC, Roberta. Arpilleras da resistência política chilena. São Paulo: Memorial da Resistência de São Paulo, 2012. Catálogo de exposição.
CONTI, Esther Vital Garcia. Arpilleras y empoderamiento de afectadas a defensoras de derechos humanos. In: ASTORKIA (org.), Iratxe Momoitio Astorkia. La embarcada ativista, arte terapia e ativismo. Bizkaia: Fundación Museo de la Paz de Gernika, 2016.
SILVA, Fábia Roseana Souza Oliveira da. Arpillera, o tecido pedagógico da resistência feminista no Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB: uma inspiração chi- lena para as mulheres rurais do Nordeste do Brasil. 2022. Dissertação (Mestrado em Educação Contemporânea) - Universidade Federal de Pernambuco, Caruaru, 2022.
SOARES, Monise Vieira Busquets. Tecendo a luta: memória, violência e violação dos direitos humanos em arpilleras bordadas por mulheres atingidas pela UHE Belo Monte. 2019. 253f. Tese (Doutorado em Ciências do Ambiente) – Universidade Federal do Tocantins, Programa de Pós-Graduação em Ciências do Ambiente, Palmas, 2019.
NOTAS
1 Exposição na Universität für Bodenkultur Wien, em Viena, até 08 de novembro; no Afro-Asiatisches Institut, em Salzburg, entre 25 de novembro e 21 de dezembro; no Haus der Begegnung, em Innsbruck, de 12 de janeiro a 07 de fevereiro. Por fim, as 15 peças retornam a Viena em 20 de fevereiro, para uma última exposição, desta vez na Igreja Votiva (Votivkirche).
2 Site oficial do Movimento dos Atingidos por Barragens: mab.org.br/lutas/
3 A Cúpula dos Povos é um evento autônomo que aconteceu em Belém
(PA) de 12 a 16 de novembro de 2025, paralelamente à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).
4 Estas oficinas derivam de um processo com as coordenadoras do coletivo de mulheres do MAB e tiveram início na exposição Arpilleras da Resistência Política Chilena, no Memorial da Resistência de São Paulo, em 2011, sob curadoria da chilena Roberta Bacic.
5 O acervo está disponível no site oficial do MAB. Acesse: mab.org.br/repositorio/perpage=12&view_mode=cards&paged=1&order=ASC&orderby=date&fetch_only=thumbnail%2Ccreation_date%2Ctitle%2Cdescription&fetch_only_meta=
MAB
O Movimento dos Atingidos por Barragens tem uma longa história de resistência, lutas e conquistas. Nasceu na década de 1980, em experiências de organização local e hoje é um movimento de caráter nacional, autônomo, de massa, de luta, com protagonismo coletivo em todos os níveis. Nosso objetivo é organizar os atingidos por barragens e pela crise climática. Desde o início, as mulheres tiveram um papel ativo e importante nessa organização. Utilizamos as arpilleras desde 2013 como ferramenta para potencializar o protagonismo e tecer a organização das mulheres atingidas. O movimento reúne as populações atingidas pela construção, operação e rompimentos das barragens e atingidas por desastres e eventos extremos das mudanças climáticas.





Comentários