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Nas fissuras entre o corpo, o concreto e o urucum

  • 3 de jul.
  • 9 min de leitura

— Andrey Guaianá Zignnatto



Itche Xambrá Haun Fór Andrey Guaianá

Zignnatto, regag tivê kaingá Dofurêm Guaianá.

Itche dofuvê, uraimatõ Jundiaí-São Paulo,

opecuxã to tã Dofurêm Guaianá.




Os lugares de criação existem como endereço fixo, CEP, contrato de aluguel? Ou são deslocamentos, travessia, resto de chão? Pergunto isso como quem encosta o ouvido na terra e espera que ela responda com um sopro. Pra mim, lugar de criação não é sala branca, nem cubo neutro, nem silêncio condicionado por ar central. Não é pedestal. Não é vitrine. Também não é a rigidez institucional de um museu, nem o fetiche do mercado que tenta domesticar o gesto. O lugar de criação não cabe numa planta baixa. Ele vaza. Vaza no corpo, na rua, na parede que já foi chão, na boca que mastiga livro e devolve memória. Está por aí, esperando alguém tropeçar nele. E eu escrevo do lugar que carrego: sou Guaianá, sou homem da cidade, já fui pedreiro, artista sem ateliê fixo. Produzo em casa, na mesa da cozinha, no chão da sala, entre panelas e recordações; produzo em fábricas de tijolos, em canteiros de obras, em aldeias, em terrenos baldios onde o vento levanta pó. Aprendi que levantar um mundo derrubado a partir do chão é trabalho 


Quando produzi 9 de Julho de 1562, eu não estava apenas fazendo uma obra; eu estava ativando um lugar de criação que não cabia na folha A4. Eram 463 telas nesse formato, cada uma com meu polegar em tinta de barro colhida onde tudo aconteceu, no chão que hoje chamam Pateo do Colégio, mas que já foi Hãive (1). O lugar de criação ali era o próprio território ferido. A cada tela, um mililitro de branco entrava devagar, como quem vigia um apagamento. Até a 447, a cor ia sumindo, como se a história quisesse virar nostalgia. O lugar de criação parecia rarear. A partir da 448, eu volto a pôr terra, gota a gota, até reencontrar a força da cor que sempre foi nossa. Criar, ali, foi recusar o desaparecimento. Pintar com o polegar é transformar dedo em chão. É fazer do corpo o primeiro ateliê e tatuar a cidade com o que foi arrancado dela.


Eu não tenho ateliê no sentido clássico. Meu ateliê é móvel. Às vezes, ele cabe numa mochila; às vezes, ocupa uma parede inteira; às vezes, é a própria fábrica de tijolos, onde o barro ainda é barro, e não mercadoria. Criar na fábrica é lembrar que, antes de virar parede, o tijolo é terra moldada por mãos. Criar no canteiro de obras é atravessar o espaço onde o cimento constrói e também apaga. Criar na mesa da cozinha é aceitar que panela e pigmento podem dividir o mesmo território. Criar no chão da sala é como apreender que o piso não é limite e que você pode transformá-lo em superfície de inscrição. Esses são meus lugares de criação: improvisados, instáveis, vivos, moventes. Depende da ideia, das condições, da vontade, da vida.


A criação, pra mim, está longe de representar algo como entretenimento ou distração casual. Minha criação é demarcação. Cada lugar onde crio vira território simbólico. A superfície da tela é um primeiro lugar; o espaço expositivo, quando existe, é um segundo lugar; e o espaço da mente de quem observa é um terceiro. Três camadas de criação que se atravessam. Quando as telas enchem a parede, a parede vira mapa; quando transbordam e descem até o chão, como raiz insistente, o lugar de criação deixa de ser vertical e vira chão compartilhado. Quem pisa ali participa do gesto. Cada passo é um retorno: ao chão que nos formou, ao tempo que não passou, ao nome que ainda canta. Se o céu foi derrubado, o lugar de criação é onde a gente aprende a levantá-lo com os dedos, com os olhos, com os dentes, com o corpo. Sempre em estado de celebração, pintando esse céu de vermelho-urucum. Ainda há um céu para ser erguido!


A grilagem cultural também invade lugares de criação. Não se trata apenas de um “copiar e colar”, é mais do que isso; é extrair sentido como se extrai minério. É pegar nosso rito, arrancar a raiz, trocar a palavra por estilo e vender o resto como novidade. A chamada modernidade antropofágica celebrou a devoração como método, e eu observo como quem já teve o prato roubado. Quando Tarsila do Amaral e sua geração falaram em devorar para criar nacionalidade, havia brilho nos dentes e silêncio sobre os corpos que perdiam casa e nome. O lugar de criação deles foi consagrado, mas o nosso foi soterrado. A ironia de tudo isso é densa: celebravam inventividade enquanto apagavam o mapa que nos sustentava.


Minha resposta foi mastigar. Literalmente. Mastigo livros de história colonial, mastigo imagens que me foram roubadas, mastigo documentos oficiais, mastigo obras consagradas. E não faço isso para destruir, mas busco transformar os registros em matéria de reexistência. O que sai da boca faz-se papel reciclado tingido de jenipapo, torna-se pigmento, objeto e memória que não cabe numa vitrine. A boca, agora, é lugar de criação. Mastigar é desacelerar a violência do discurso e não engolir o que tenta nos sufocar. É fazer do corpo ferramenta de restituição. E, se derrubaram nosso céu e disseram que nosso mundo foi extinto, eu mastigo a história com os dentes e cuspo cor.


Tenho ritual por tudo que é canto. Tomei emprestado o Abaporu para devolver diferente. Abaporu virou ABAPORU  Vikavém Canê Vê (2). A palavra indígena tem gosto forte, significa “homem que come homem”. Não romantizo. Uso a força dessa imagem para expor a ferida: enquanto o modernismo se alimentava de símbolos indígenas como tempero, nossos corpos eram empurrados para fora do presente. Meu lugar de criação, nesse gesto, foi confronto. Devolvo o nome com crítica e memória. Mas meu objetivo não é repetir o passado. Quero  interromper o mau uso da nossa língua.



Andrey Guaianá Zignnatto

O corpo é meu primeiro e último lugar de criação. Quando o Hãive é reduzido ao tamanho do corpo, a gente carrega a aldeia inteira nas costas, e às vezes pesa. Por isso marquei meu corpo com cimento, grafando traços Guaianá na pele. O cimento construiu a cidade, mas também enterrou nossa história. Entro no canteiro de obras como quem entra num templo. Uso a matéria da dominação como tinta de retomada. Ali, entre brita e ferragem, meu lugar de criação é também lugar de tensão. É dizer que a ancestralidade pulsa mesmo debaixo do concreto.


Aprendi muito como pedreiro. Com meu avô, entre pilhas de tijolo e marmita, entendi que fazer é estar. O gesto de colher areia, misturar cimento, bater o compasso virou ritmo ritual na minha prática. Que gambiarra bem-feita pode muitas vezes ser a melhor solução possível. A fábrica de tijolos é uma escola. O canteiro de obras é sala de aula aberta. A mesa da cozinha é bancada de experimentação. O chão da sala é extensão do território. Enquanto alguns enxergam a cidade como invenção, eu vejo camadas de destruição e semeadura. O lugar de criação é também o lugar onde a cidade falha em lembrar de quem a construiu.


“Levantar o céu do chão” não é frase bonita de catálogo, nem frase de efeito para engajamento em redes sociais. Essa é a tarefa diária de quem cria sem ateliê fixo, de quem monta e desmonta o espaço conforme a vida permite. A terra não está só sob nossos pés; ela mora no corpo, na língua, na memória. Quando o céu cai, pesa. E o lugar de criação é onde a gente decide não ficar soterrado. A arte está na pá, no gesto e no puxão coletivo. A gente levanta meio torto, com dedos arranhando, mas levanta. Criar e erguer são sinônimos.


Vikavém Canê Vê é olhar que não fecha. É ver a ferida e transformar visão em ação. Ter sangue nos olhos é intensidade que incomoda. Esse olhar lê a cidade como quem lê ossadas: cada ruína, pista; cada placa, documento; cada silêncio, denúncia. O lugar de criação, então, é também lugar de leitura. Leitura da cidade, do corpo, da história. Transformar ferida em mapa e mapa em ação é um método de criação.


Os rituais que realizo com povos de outras origens, como Maori, Purépecha, Tongva, Lesoto, Goa Hindi, ampliam meus lugares de criação. Se, para alguns, essas atividades não passam de intercâmbios exóticos, para mim são encontros de parentesco possível. Quando anciãos de povos distintos pressionam palmas pintadas de terra nos rostos uns dos outros, o lugar de criação é o próprio encontro. A terra se confunde, as feições se cruzam e a memória se entrelaça. Criar, ali, constitui costurar identidade como tecido coletivo. Um gesto de cura.



Andrey Guaianá Zignnatto
Registro do ritual artístico Abaporu 5, realizado com o povo Tongva, residência artística no Museum of Latin American Art – Molaa, Los Angeles, Califórnia, EUA, 2024. Fotografia: Acervo pessoal do artista.


Quando digo que a criação demarca o imaginário, afirmo que ela traça fronteiras onde o colonizador tentou arar sem pedir licença. Lugar de criação não é gramado aberto para ser pisoteado. O espaço para criar é meu território de pensamento, de rito, de língua. Exigir respeito à língua é defender o lugar de criação. Recuso tradução rasa porque protejo o espaço onde o gesto nasce. Criar é ato político quando preserva a complexidade.


Herói é coisa de juruá também é afirmação sobre lugares de criação. O ideal do indivíduo-salvador não sustenta cosmologias em que o coletivo é o centro. Imprimo o cocar no chão, deixo-o caído e digo: não buscamos herói; buscamos memória, território e continuidade. Enquanto alguns celebram a marginalidade como estética, nós fomos empurrados para a margem por violência. Meu lugar de criação parte da vida, não do circuito. Existe a arte-vida que parte dos sistemas dos circuitos da arte; eu escolho a vida-arte que parte dos lugares da vida.


O peso do céu em queda não desaparece com discurso bonito. Ele se converte em responsabilidade. O lugar de criação que me interessa pega esse peso e transforma em ferramenta. Pinta, mastiga, grava, convoca. Quero ocupar com presença concreta. Quando exponho, ocupo. Quando crio em casa, ocupo. Quando transformo canteiro em altar, ocupo. O público testemunha e, às vezes, se alia. Cada espaço ativado se transforma em um Hãive provisório.



Andrey Guaianá Zignnatto

Se me perguntarem sobre lugares de criação, respondo com gesto: onde o urucum encontra o cimento; onde o polegar grava terra na tela; onde a boca mastiga história e devolve pigmento; onde o corpo marcado de cimento insiste em pulsar. São a mesa da cozinha, o chão da sala, a fábrica de tijolos, a aldeia, o canteiro de obras. São lugares improváveis que se recusam a ser neutros. Estamos acostumados com a ideia de uma morada fixa, mas os lugares de criação são um fluxo.


Quem carrega o mundo merece ser mundo. Quem sustenta memória merece espaço para criar. Eu crio territórios não para fechar, mas para afirmar povo, língua, jeito de ver. Se a cidade tenta nos negar, o lugar de criação devolve uma resposta simples: estamos aqui. Com sangue nos olhos. Pintando, mastigando, erguendo. Esculpindo o mundo de volta a partir do que sobrou e do que insistimos em plantar.


Como indígena, o lugar da criação pode ser qualquer lugar possível para levantar um céu derrubado. Na perspectiva de pedreiro na arte — e parafraseando muitos pedreiros e demais operários da construção civil com quem eu tive ou ainda mantenho contato, a maioria deles imigrante de outras regiões do Brasil —, o lugar da criação pode ser qualquer lugar onde eu encontre “uma oportunidade para ganhar a vida!”.


Escrevo sabendo que criação é mais do que objeto final. É processo, é gesto, é cura, é guerra e canção, é celebração. Pode ser casa, mesmo quando não há ateliê. Pode ser aldeia portátil. Se alguém quiser saber onde ficam meus lugares de criação, que olhe a palma da minha mão. Ali está o barro e o cimento. Ali está o polegar. Ali está o traço que não deixo apagar. Pode ser o próprio corpo. A criação está onde insisto em recolocar cor no mundo, mesmo que seja no chão da sala, entre o ruído da cidade e o silêncio ancestral que me atravessa.




Andrey Guaianá Zignnatto
Imagem da fábrica de tijolos Stark em Lima, Peru, que serviu de espaço de produção de uma série de trabalhos do artista, 2015. Fotografia: Acervo pessoal do artista.



Andrey Guaianá Zignnatto
Alicerce Concreto, pigmentos sobre cerâmica, 300 cm × 600 cm x 400 cm. Museu Afro Brasil, 2023. Fotografia: Marília Scarabello
Andrey Guaianá Zignnatto
Andrey Guaianá Zignnatto Mrài. Vídeo-performance, 4’10”, 2024.

NOTAS

(1) Hãive é traduzido simplificadamente como aldeia, o lugar onde tudo acontece; cultura, ancestralidade, espiritualidade; para que uma pessoa se desenvolva como um Guaianá.

(2) A expressão mais próxima para traduzir Vikavém Canê Vê seria “Sangue nos olhos”.


Andrey Guaianá Zignnatto


Artista e ativista, indígena mestiço dos povos Dofurêm Guaianá e Guarani M’bya. Curador do

Instituto Rouanet (Brasil), codiretor do À Margem Coletivo de Dança. Presidente da Associação Nacional do Povo Dofurêm Guaianá. Participou de exposições individuais e coletivas em museus, centros culturais e galerias de arte no Brasil, EUA, Emirados Árabes, Inglaterra, Espanha, Itália, Peru, Colômbia e Argentina. Contemplado com dois prêmios do Ministério da Cultura, sendo um pela Funarte e um pelo Iphan (2014 e 2015); indicado ao prêmio Jameel Art Prize, do Victória & Albert Museum da Inglaterra (2017). Possui trabalhos em acervos de importantes instituições, como Museu Reina Sofia (Madrid, Espanha), Perez Art Museum (Miami, EUA), The Brillembourg Capriles Collection (Madrid, Espanha/Miami, EUA), Museu de Arte do Rio – MAR (Rio de Janeiro, Brasil), entre outros.








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