Editorial — Lugares de criação
- 18 de jun.
- 4 min de leitura
— Por Célia Barros
Quais são os espaços que facilitam, permitem, estimulam ou constrangem o ato criativo? Como se configuram esses lugares e que diferenças propõem? Nossa intenção é investigar onde a arte emerge, se transforma e encontra força para existir.
Esta edição percorre museus, ateliês, ruas, escolas, residências artísticas e margens diversas para compreender como esses contextos provocam e sustentam processos criativos. De que forma cada território, com suas redes de pertencimento e urgências locais, produz modos próprios de imaginar, ensinar e compartilhar arte.
Para pensar sobre os Lugares de Criação, retomamos alguns debates da publicação anterior porque entendemos a necessidade de aprofundar as questões que Maria Luiza Meneses e Nenesurreal manifestaram nos seus ensaios, e que poderiam contribuir para o que queremos explorar neste número.
Dessa forma, a curadora e pesquisadora Maria Luiza Meneses retoma o fio sobre a sua experiência em museus, desde uma perspectiva participativa e comunitária, fazendo pontes entre a Pinacoteca de Mauá e a museologia pan-africana. Na sua pesquisa, a autora traça um percurso que atravessa vários lugares de criação: desde a gestação da ideia de museu até a sua transformação atual, passando por lugares como invenção de território ou materialização da memória, tendo a instituição museológica como ferramenta.
Em 2025, durante os bastidores da 6ª edição da Revista Latente - Arte e Transformação Social, a primeira conversa com Nenesurreal evidenciou a imensa camada de invisibilidade que permeia a presença das mulheres no Graffiti, em especial mulheres pretas, periféricas e LGTBQIA+, e a necessidade de abordar essa esfera de ação com um olhar mais atento às suas particularidades. Como resposta, para este número, Nenesurreal nos ofereceu uma curanderia: uma coletânea de mulheres grafiteiras que atuam nas margens das capitais com olhar especial para o Norte e Nordeste. Ketty Valencio reúne relatos de artistas de diferentes territórios, evidenciando trajetórias diversas, mas conectadas por questões comuns, como o machismo, a construção de identidade, a produção de memória e o vínculo com a comunidade. A atuação dessas artistas é entendida como gesto político, que reinscreve suas histórias nos muros da cidade e afirma a rua e o Graffiti como lugar de existência.
Esses lugares que procurávamos foram se configurando como espaços de fissura, palavra que surgiu nos títulos de Andrey Guaianá Zignnatto e Jeff Barbato, salientando o lugar criativo como condição atravessada por vulnerabilidade ou fracionamento capaz de gerar novos sentidos de pertencimento e reinvenção.
Desde Jundiaí, Zignnatto propõe uma compreensão expandida dos lugares de criação, ao recusar a ideia de espaços fixos e institucionais. Para ele, criar é um gesto situado no corpo, no território e na experiência, atravessado por memória, ancestralidade e resistência. Sem ateliê fixo, sua prática acontece em espaços cotidianos e instáveis, como a casa, o canteiro de obras, fábricas de tijolos e a cultura indígena. A criação surge como demarcação simbólica, transformando cada espaço em território de afirmação cultural e política.
Para Jeff Barbato, que atualmente mora e trabalha em São José dos Campos, mas tem circulado intensamente por diversas regiões do interior do estado de São Paulo, sua própria experiência com a fissura labiopalatina o encaminha para uma pesquisa artística que articula corpo, matéria e território. A partir de uma trajetória marcada por cirurgias, memórias familiares e vivências afetivas, a criação surge como condição de existência e forma de compreender o mundo.
Por outro lado, o formato cada vez mais recorrente da residência artística situada, que provoca uma abertura física e temporária possibilitando encontros com diferentes processos de criação, é também foco desta edição. Para a seção DESLOCAMENTOS, a Revista Latente esteve presencialmente na abertura da exposição Entrelaces: arte, memória e meio ambiente, com curadoria de Katia Zirnberger, em Ubatuba. Trata-se de um projeto que imagina não só uma estratégia de imersão e interlocução com o território e memória da Ilha Anchieta, mas também uma tática de articulação para a criação, não somente de obras, exposições e projetos, mas, acima de tudo, modos de viver e fazer juntos.
Ainda sobre o formato de residência artística situada, para a seção LATITUDES, Paula Lucila Benitez contribui com a sua experiência na Residência Epecuén, na Argentina, que acontece em um território de ruína e transformação, onde a criação não se centra no objeto final, mas na relação entre corpo, paisagem e comunidade. Instalado nas ruínas de uma cidade submersa por décadas, o programa propõe habitar o colapso como campo de possibilidades.
Ainda nesta seção, Susana Alves investiga como diferentes espaços moldam e condicionam a ação criativa, entendendo a criação como uma prática atravessada por contextos físicos, sociais e institucionais. A partir de experiências em museus, escolas, espaços públicos e ambientes naturais em Portugal, a autora demonstra que cada território produz condições específicas para a arte. No museu, a criação se conecta à memória e ao pertencimento coletivo; na escola, enfrenta estruturas rígidas que podem limitar, mas também tensionar e transformar práticas; na rua, atua como interrupção do cotidiano, provocando encontro e reflexão; e, na natureza, favorece desaceleração, escuta e ampliação sensorial.
Ainda pensando sobre o ambiente educacional, Ana Helena Grimaldi conversou com a Revista Latente sobre a relação indissociável entre arte e educação, entendendo os materiais educativos como espaços de criação, experimentação e encontro coletivo. Para a artista e educadora atuante em Campinas, materiais educativos são dispositivos que convidam à criação, à escuta e à participação.
A partir da sua experiência na região de Itu, a historiadora e crítica de arte Sylvia Werneck colabora também nesta edição trazendo o olhar para os espaços impermanentes: a dificuldade em resistir ao longo do tempo nos contextos interioranos, mas também o valor de seguir imaginando e fazendo acontecer esses lugares ainda que esporádicos.



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