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Corpo-Rio: uma poética da fissura

  • 3 de jul.
  • 9 min de leitura

Jeff Barbato

O menino de lábios dilacerados. O da boca marcada por uma fenda que nascia bem abaixo de sua narina e terminava no final do queixo do lado direito de seu rosto. Fissura que mostrava uma gengiva mal-acabada de dentes falhos, minúsculos e tortos. Rouxinol, criança que, ao soltar seus primeiros balbucios, foi acusado de possuir uma fala que provinha de um mal contagioso que morava em suas entranhas. Por isso fora condenado à morte. Diziam que era preciso acabar com Rouxinol, para que nunca mais surgisse dentre eles alguém tão sem boca, tão sem lábios, tão sem fala compreensível

— Conceição Evaristo,

Histórias de leves enganos e parecenças,

Rio de Janeiro: Malê, 2016, p. 71




Jeff Barbato
Formação de-formação na exposição Zonas de sombra, com curadoria de Allan Yzumizawa, Jurandy Valença e Horrana de Cássia Santos, na Pinacoteca de São Bernardo do Campo - SP. 2022. Fotografia: Ana Helena Lima

Estimades leitores,


O céu iluminado por uma tempestade de raios: um Brasil marcado por promessas de modernização e por cicatrizes sorrateiras em 1990. Um dos raios se estatela em São Bernardo do Campo às 4h36 da tarde do dia 2 de outubro, dentro do Hospital Neomater. Primeira fratura: meu avô paterno Orlando faleceu após perder tudo o que construiu para o Plano Collor. Antes mesmo de aprender a falar, meu corpo já apresentava a incerteza da fala, atravessado pela deusa trina dos raios, relâmpagos e trovões, Illapa, assim como acreditava a civilização Mochica. Durante essa tempestade, nasci “tão sem boca, tão sem lábios, tão sem fala compreensível” — assim como é descrito o menino Rouxinol (1).


Entre procedimentos cirúrgicos e viagens constantes a Bauru, onde fui acompanhado pela equipe do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP, compreendi cedo que existir é aprender a negociar passagens e feridas. Sob as influências de minha mãe, Leninha — atriz, costureira e artista —, que frequentemente me levava ao teatro do Sesi Santo André e, depois das apresentações, para comer cachorro-quente prensado no Grande. Meu pai, Barbatinho — corajoso, trabalhador e artesão da madeira —, com sua doçura e habilidade em criar objetos, me levava para comer misto-quente na padaria Bolonha. Vivenciei inúmeras possibilidades de fabular mundos possíveis, e isso tornava o ato de comer extremamente divertido. A boca, cavidade feita para nos nutrir por dentro, guardou muitas dessas memórias: padarias, lanchonetes e também hospitais por onde passamos juntos. 


Assim, torna-se nítido que meu lugar de criação nasce em casa, do afeto, e que o processo criativo surgiu como condição de existência. Foi absolutamente por conta dessa criação de meus pais que busquei nas artes e no design caminhos para compreender o mundo — áreas que habitaram o meu dia a dia e o meu imaginário desde a infância, quando colecionava cadernos e mais cadernos de desenhos. Foi dessa experiência que nasceu minha pesquisa artística: durante a graduação em Artes Visuais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), ao entrar em contato com os objetos aprisionados de Nazareth Pacheco (2), desenvolvi a pesquisa Ensaio para uma fissura: da superfície à profundidade, uma poética


Jeff Barbato

Por assim dizer, é através da marca inscrita em meu corpo, em meu lábio e em meu céu da boca, que tenho me dedicado ao estudo da iconografia da fissura labiopalatina nas mais distintas histórias das artes visuais, propondo uma epistemologia da fissura. Ao longo dessa pesquisa, passei a expandir o meu olhar para além de minha fissura. Ao caminhar, miro não o horizonte “mas o chão, percebendo as rachaduras entre as camadas de cimento, asfalto, ladrilho e pedra, buscando nesses estreitos e rasos abismos encontrar a representação metafórica para as fissuras da vivência, para as fraturas do corpo, para as falhas da memória” (4). 






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Materialidade


Para além das reflexões que permeiam o meu corpo e o corpo-território, meu trabalho acontece na matéria em mutação, no campo da impermanência — o líquido que se torna sólido, polido que se torna ruidoso —, revelando as tensões efêmeras que atravessam qualquer estrutura. Muito me interessa o momento da reconfiguração, quando a matéria deixa de ser uma coisa para tornar-se outra, se rendendo a toda a sua potência corporal. Assim como minha pesquisa se ancora em valores afetivos, a escolha dos materiais também nasce da experiência vivida. Trabalho com madeira, concreto, papel, ferro e aço — elementos vinculados à construção civil, ambiente que permeou minha infância e moldou minha percepção de mundo.


Junto de minha família, vivi em uma casa em processo: paredes sem reboco, janelas de ferro e aço com a pintura descascada e enferrujada, madeira reutilizada, lonas penduradas, teto exposto em tons de vermelho e cinza. Casa essa construída pelas mãos de meus pais, o que me fez crescer em meio a esses materiais — seus pesos, texturas, cheiros e processos de desgaste. Hoje, ao incorporá-los em minha prática artística, quero ativar as memórias e os gestos que carregam. A matéria é a extensão da experiência, revelando que criar é também escavar lembranças, reconhecer as marcas do tempo, permitindo que aquilo que um dia foi abrigo continue a sustentar novas formas de existência.


Em alguns trabalhos, a matéria carrega a presença concreta das mãos e do suor de meus pais. Nas caixas que abrigam a série Tentativas de reconstrução e nas molduras das obras de Céu da boca, por exemplo, é meu pai quem participa do processo, trazendo para o trabalho sua experiência prática com a madeira e com os modos de construir coisas. Já na obra Formação de-formação, minha mãe costura manualmente, um a um, os envelopes plásticos que compõem a estrutura do trabalho. Esses invólucros funcionam como uma espécie de útero: um espaço de proteção e gestação que abriga a monotipia em que se inscrevem as faces de um embrião em formação. 


Ainda em leituras curatoriais do meu trabalho, feitas por Allan Yzumizawa (5) e Jurandy Valença (6), o processo de oxidação do ferro dialoga com transformações que também atravessam o corpo e o território, onde linhas, fissuras e fragmentos operam como passagens e cartografias do tempo. Nesse sentido, assumo o tempo como aliado no processo de construção do meu trabalho, conduzindo a oxidação como gesto poético que revela o aço-carbono como uma fissura viva, sensível ao ar, à água e à passagem dos dias, e não como mero acidente químico.



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A epistemologia da fissura 


Se, até então, o tempo e a matéria já haviam revelado a potência transformadora das fissuras em meu trabalho, aos poucos passei a compreendê-las também como uma forma de aprendizado. Dessa percepção surge o que chamo de poética da fissura, um modo de olhar e produzir imagens a partir das rachaduras do mundo, reconhecendo tanto as fissuras do corpo e da terra quanto as fraturas inscritas violentamente nos corpos e no território: rios canalizados com seus cursos ocultados, trilhos que delimitam passagens construídos a partir de um processo de violência social e linhas que separam espaços de existências e corpos dissidentes de corpos norteados por um pensamento hegemônico.


Curioso como duas palavras frequentemente tomadas como equivalentes — fissura e fratura — carregam naturezas distintas. A fratura se apresenta aqui como ruptura abrupta: um corte que interrompe a continuidade de uma estrutura e expõe a violência de um gesto que separa, muitas vezes provocado por forças externas que se impõem sobre corpos e territórios, como nas retificações de rios, na abertura de estradas e trilhos ou nos dispositivos sociais que buscam corrigir e normatizar corpos DEF (7). Já a fissura, embora também seja uma abertura, opera de maneira espontânea: não necessariamente destrói a estrutura que atravessa, mas cria uma linha de tensão que revela camadas e permite passagens, infiltrações e transformações. Diferente da fratura, que separa, trinca e fragmenta, a fissura frequentemente conecta e expõe aquilo que permanece latente sob a superfície. 


É nesse campo que se desenvolvem as séries Uma inesgotável escavação e Terra rasgada, concebidas como procedimentos contínuos de investigação. Escavar, coletar, viandar, registrar e recompor tornam-se gestos que articulam pensamento e matéria, permitindo que o trabalho emerja do contato direto com o solo, com arquivos, mapas e com as memórias. O processo assume caráter aberto, interessado em revelar tensões entre visível e invisível, presença e apagamento, fissura e fratura, aproximando corpo e cidade como instâncias inseparáveis de um mesmo fluxo. Assim, as obras não se encerram em si, mas operam como dispositivos que convidam à leitura das camadas que constituem o território e às relações que nele se inscrevem.



Jeff Barbato


A viandança como método 


Nesse percurso, a investigação se amplia para além do ateliê e dos procedimentos com materiais, deslocando-se para o corpo em movimento como ferramenta de re-conhecimento. Por assim dizer, encontro na viandança — metodologia proposta por minha orientadora do mestrado, Viviane Melo de Mendonça — uma forma de perceber de maneira mais atenta as fissuras e as fraturas que atravessam a experiência urbana, utilizada também como metodologia para a escrita de minha dissertação de mestrado em Estudos da Condição Humana pela Universidade Federal de São Carlos, intitulada: O rio que nos olha: uma viandança pelo Rio Sorocaba


Caminhar torna-se, então, um gesto metodológico e sensível, um modo de acompanhar os ritmos da cidade, escutar seus silêncios e reconhecer as tensões inscritas nas paisagens cotidianas. A viandança se apresenta como prática que aproxima corpo e território, permitindo que o processo criativo se constitua no encontro direto com ruas, margens, infraestruturas, criaturas, seres e memórias, ampliando a compreensão das fissuras/fraturas como fenômenos simultaneamente físicos, sociais e simbólicos. Essa metodologia é atravessada e inspirada pela escrevivência de Conceição Evaristo e pela noção de saberes situados nos estudos de Donna Haraway, “reafirmando que o conhecimento produzido aqui não busca neutralidade, mas posicionamento. Ao viandar, registra-se o que o rio é, o que fizeram dele e, sobretudo, o que ainda pode ser reinventado na relação” (8).


Neste sentido, a viandança se afirma como prática contracolonial na medida em que desloca o olhar das lógicas de controle e produtividade, vistas geralmente de cima como em mapas digitais e passa para uma ética de escuta do território, de corpos presentes. O ato de caminhar passa a constituir um gesto de reaproximação com aquilo que foi historicamente silenciado, saberes locais, memórias encobertas, ritmos não hegemônicos da cidade. Ao longo das margens do Rio Sorocaba, a prática se materializa como exercício de atenção às múltiplas camadas que compõem a paisagem: vestígios de industrialização, marcas de urbanização acelerada, narrativas comunitárias e sinais de resistência que persistem nas bordas. Nesse encontro, o rio se torna interlocutor, orientando uma forma de pesquisa que reconhece o território como sujeito e convoca o corpo a aprender com seus fluxos, suas pausas, suas feridas: o que chamamos aqui de corpo-rio.


É nesse horizonte que penso a obra Terra rasgada: retificação, apresentada em Frestas – Trienal de Artes do Sesc, no Sesc Sorocaba, ao sobrepor o traçado sinuoso do antigo curso do Rio Sorocaba, cujo desenho foi reproduzido de um mapa da cidade datado de 1941 — desenhado na parede com óxido de ferro, como um rastro — à linha rígida em aço (induzido a um processo de oxidação), que marca o trajeto contemporâneo do rio retificado. Assim, a obra evidencia uma fissura/fratura territorial produzida pelo desejo humano de corrigir e controlar os fluxos da paisagem em contraposição a formação natural do corpo-rio, submetido a processos de normatização semelhantes aos que historicamente incidem sobre corpos DEF, corpos considerados desviantes ou fora da norma pelos discursos médicos, científicos e sociais hegemônicos.




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Assim como rios são endireitados, canalizados ou contidos, corpos DEF também são frequentemente alvo de intervenções que buscam ajustá-los a uma ideia de integridade, completude e normalidade. Diante disso, é importante refletir: quem estabelece essa noção de normalidade?

 

A fissura/fratura que atravessa a parede, para além de uma representação cartográfica, é a metáfora de um corpo marcado, um corpo que carrega, em si, uma história de toda uma existência que sofrera intervenções e, portanto, não representa apenas o próprio rio, mas também uma fratura que revela os modos como diferentes corpos são moldados, ajustados ou disciplinados ao longo do tempo por um pensamento hegemônico. Parafraseando a filósofa, física e ativista ambiental indiana, reconhecida internacionalmente por seu trabalho, Vandana Shiva, são corpos esculpidos por uma monocultura da mente e do pensamento.



Jeff Barbato

NOTAS

  1. Personagem com fissura labiopalatina no livro Histórias de leves enganos e parecenças (2016), da linguista e escritora brasileira Conceição Evaristo.

  2. Nazareth Pacheco (1961, São Paulo, Brasil) é uma artista visual brasileira reconhecida por uma produção que investiga as relações entre corpo, beleza, dor e normatização social.

  3. Quando menciono as mais distintas histórias das artes visuais, quero afirmar que não me limitei à história contada pelo colonizador ocidental, fui buscar na história da arte brasileira, andina, chinesa, japonesa, russa, aspectos da representação da fissura labiopalatina.

  4. Julia Lima. Texto curatorial Interstício, 2021.

  5. Texto da exposição Terra rasgada escrito por Allan Yzumizawa. Disponível em: https://exposicoes.jeffbarbato.com.br/terra-rasgada/.

  6. Texto da exposição O vazio abarcado escrito por Jurandy Valença. Disponível em: https://exposicoes.jeffbarbato.com.br/o-vazio-abarcado/.

  7. DEF: Como apropriação crítica da deficiência; refere-se à valorização, representatividade e estética de corpos com deficiência, combatendo o capacitismo e a corponormatividade (a ideia de um «corpo padrão» bípede/funcional). Esse conceito busca novas éticas e narrativas na arte destacando a potência criativa e a particularidade inventiva de pessoas com deficiência.

  8. BARBATO, Jeff Denzin; MENDONÇA, Viviane Melo de. Terra rasgada: viandar o rio que caminha em nós.


Jeff Barbato

(São Bernardo do Campo, 1990) é artista visual, pesquisador e professor. Mestrande em Estudos da Condição Humana pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar (Sorocaba), é bacharel em Artes Visuais pela Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design da Universidade Estadual Paulista – Unesp (Bauru). Atua também como docente no curso técnico de Design Gráfico do Senac-SP. Sua pesquisa artística investiga a iconografia da fissura labiopalatina nas artes visuais e suas reverberações simbólicas nas fissuras sociais. A partir de sua própria experiência corporal, desloca o olhar do sujeito considerado “deficiente” para as estruturas sociais que produzem a deficiência, articulando práticas que atravessam instalação, desenho, vídeo e experimentações materiais. Participou de exposições em instituições como o Centro Cultural São Paulo (Programa de Exposições do CCSP), Centro Cultural Fiesp (Demonstra: pela poética DEF), Sesc Sorocaba (Frestas – Trienal de Artes do Sesc), Centro Cultural Correios (São Paulo), Pinacoteca de São Bernardo do Campo, Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul, entre outras mostras e salões de arte no Brasil. Seu trabalho integra coleções públicas, como a Coleção de Arte da Cidade de São Paulo, no Centro Cultural São Paulo, além dos acervos da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul, da Pinacoteca Municipal de Bauru e da Prefeitura de Praia Grande.




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