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Relações situadas: Entrelaces na Ilha Anchieta

  • 19 de jun.
  • 5 min de leitura

Célia Barros e Gabriela Leirias


Quando Katia Zirnberger e Erica Sanches idealizaram o projeto Entrelaces - Arte, memória e meio ambiente, já conheciam bem a complexidade histórica e socioambiental que envolve o território da Ilha Anchieta. Ambas têm realizado projetos com escolas procurando estabelecer vínculos com a ilha a partir de um pensamento crítico e poético. Nascidas em São Paulo e estabelecidas na cidade há mais de 20 anos, têm desenvolvido um trabalho incansável de articulação entre artistas, seja por meio da FundArt ou do Setorial de Artes Visuais de Ubatuba, ou ainda inventando e integrando projetos de forma autônoma e coletiva. Em parceria com diversos artistas — vários deles também participantes desse projeto —, vêm movimentando o cenário das artes visuais na região.


Contar a história desse território cercado de água salgada é sempre um processo desafiador, que contrasta com o azul e verde da paisagem e o imaginário que geralmente associamos a esses lugares. 


O desembarque oficial na ilha acontece exatamente onde hoje estão as ruínas do antigo presídio Colônia Correcional da Ilha dos Porcos (só em 1934 a ilha receberia o nome de Anchieta), fundado em 1908 para receber presos comuns e menores infratores, mas que, durante a década de 1930, recebeu também presos políticos da ditadura de Getúlio Vargas. A rebelião de 1952 terminou com o presídio incendiado e 118 mortos, sendo 108 presos, 8 policiais e 2 funcionários.


Se você não quiser entrar de frente nessa história, pode optar por duas vias: seguir pela trilha do Engenho à esquerda até a praia do mesmo nome, onde existe uma bica de água doce que desemboca no mar criando o Aquário Natural, ou pegar o caminho peatonal à direita seguindo pelo deck que leva até a Praia das Palmas passando pelo cemitério — um memorial da tragédia de 1926 em que 151 imigrantes búlgaros e gagaúzos, entre eles 143 crianças e 8 adultos, morreram após consumirem mandioca brava, que é imprópria para consumo in natura, e os imigrantes desconheciam os processos que eliminam o ácido cianídrico da planta. 

Os dois trajetos adentram vários dilemas socioambientais com que a ilha hoje debate a sua relação com o passado e formulação de futuros. Um olhar mais atento percebe uma série de ações de desmatamento e reflorestamento, além da presença de quatis que roubam sanduíches, saguis-de-tufo-preto, tatus-galinha, capivaras e cutias — em 1983, o Parque recebeu cem animais de 15 espécies de mamífero provindas de um jardim zoológico desativado. Algumas espécies não conseguiram se adaptar e sobreviver, mas essas cinco se multiplicaram pois não têm qualquer predador. Isso limita a reflorestação natural e abala a comunidade de animais nativos, como algumas aves que são suas presas. Na paisagem sonora da ilha, o chilrear é surpreendentemente menor do que em qualquer região de Mata Atlântica próxima, como na Ilhabela ou mesmo no continente. 


A Ilha Anchieta, originalmente habitada por indígenas das etnias Tupinambá e Guarani, ao que os estudos indicam até o momento, conta a história de invasão de um país, de sucessivas políticas coloniais de ocupação e de como elas se transformam e se desdobram ao longo do tempo. 


Ilha habitada, invadida, ocupada. Constituída por migrações e deslocamentos forçados de espécies humanas e não humanas. Transformada em presídio, em habitação, hoje é lócus de regeneração e reconstrução de memórias ambientais e sociais, espaço de pesquisa e também de turismo, onde se usufrui de sua beleza natural. 


É em meio a essa complexidade que o projeto Entrelaces afirma a potência das práticas artísticas situadas e suas conexões com o território. Contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNAB 2024, por meio da FundArt, e acolhido pelo PEIA, o projeto propôs uma residência artística que resultou numa exposição com obras e instalações ao ar livre. Durante a imersão de cinco dias em convívio com aquele contexto social, geográfico, ambiental e cultural, 10 artistas pesquisadores adensaram suas impressões e pesquisas individuais. 


Com curadoria de Katia Zirnberger e produção de Erica Sanches, a exposição Entrelaces: arte, memória e meio ambiente inaugurou em outubro de 2025, fruto do encontro entre arte, território e a experiência coletiva, resultando em 20 obras instaladas ao ar livre que propõem um percurso sensível pela paisagem, em que diferentes linguagens e poéticas dialogam com o entorno e com as camadas históricas do lugar.


As residências artísticas são iniciativas que ganham força e se multiplicam diante de um momento histórico que provoca os artistas a pensarem suas práticas em contextos situados, territórios distintos do espaço protegido do atelier; e mais, que estimulam a tensionar sua prática com contextos amplos e complexos. Envolvem deslocamento e desterritorialização, mas também processos de reterritorialização, ainda que provisórios, nos quais o fazer artístico passa a ser atravessado pelas condições específicas do lugar. 


Em contextos não urbanos, constituem um campo de forças em que o artista se insere em temporalidades outras e ecossistemas vivos, que envolve biomas, espécies diversas, comunidades, dinâmicas próprias e aspectos políticos e socioambientais. 


No dia da abertura, os artistas se organizaram para mediar as obras participantes conduzindo todo o percurso, mas, ao longo dos oito meses que durou a exposição, os visitantes puderam cruzar seus pensamentos entre a visita às praias e o contato com as obras, colocando a produção artística em contato com públicos que não necessariamente frequentam os espaços tradicionais de arte.  


Foi sem dúvida um projeto que procurou entrelaçar relações, fazer da imersão um lugar de encontro e aprendizado, fortalecendo a cooperação entre os artistas, algo que ficou muito patente no compromisso com cada detalhe por parte da equipe como um todo, e que emana também das reflexões de cada projeto individual. Se a ilha funcionou como dispositivo para a criação, a teia de relações entre artistas, parque e público visitante ativou outros lugares criativos: de fazer vida coletiva e propor modos de existência.




Entrelaces
Registros do grupo de artistas durante a residência, 2024.


Vemos um grupo coeso e cúmplice de uma experiência, no exercício de dar visualidade e forma ao que viveu, e que conta com certo risco: obras ainda em processo, em teste e experimentação, diante das dinâmicas do tempo e do espaço aberto da ilha, tal espaço expositivo incontrolável e, por vezes, imprevisível. Um contexto que constitui um desafio estimulante para a criação e exige uma postura de abertura.


A palavra escuta atravessa muitos dos relatos dos artistas. Escuta do lugar, das pessoas, dos seres que habitam a ilha, do próprio grupo. Outra palavra recorrente é tempo, tempo necessário para essa escuta, para a experiência do fazer artístico, mas também a temporalidade geológica e histórica da ilha.

Temporalidade que aponta para futuros possíveis de regeneração, mas também para o enfrentamento de desequilíbrios, como a presença de espécies não endêmicas, que exige controle, atenção e cuidado. Cuidado, outra palavra que parece importante nesse contexto. Talvez o que se entrelace aqui não sejam apenas práticas, poéticas e narrativas, mas modos de estar no mundo. 



Entrelaces Erica Sanches
Entrelaces Jimena Correa e Marina Stock


Entrelaces Pedrinha e Jeff Barbato
Entrelaces Mariana Vilela
Entrelaces Surama Caggiano e Pedro Santana
Entrelaces Katia Zirnberger
Entrelaces Licida Vidal


NOTA

(1) A Ilha Anchieta, em Ubatuba-SP, é uma das 1.200 ilhas brasileiras catalogadas conforme bases

cartográficas do IBGE (2021), sendo a segunda maior ilha do litoral norte do estado de São Paulo, com 828 hectares. O Parque Estadual Ilha Anchieta – PEIA, foi criado em 1977 com o objetivo de proteger e conservar os ecossistemas naturais; desenvolver pesquisas científicas, realizar atividades de educação ambiental e de recreação em contato com a natureza. São 17

quilômetros de costões rochosos e sete praias de águas cristalinas que contrastam com o verde da Mata Atlântica, dos quais moradores de Ubatuba e turistas podem usufruir mediante o pagamento de uma taxa e de uma travessia em balsa ou outros meios de transporte aquático.

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