Lugares de deslocamento
- 3 de jul.
- 5 min de leitura
— Susana Alves

Que lugares movimentam a ação criativa? A pergunta obriga-nos a deslocar o olhar da obra para o espaço onde ela se torna possível. Criar não é apenas um gesto individual, mas é uma ação situada, atravessada por arquiteturas físicas, normas institucionais, ritmos sociais e relações de poder. Ao longo do trabalho desenvolvido no Lugar Específico; entre arte e educação, em contextos como o Museu Municipal de Benavente (Portugal), escolas públicas, intervenções na rua e propostas realizadas em ambiente natural no Festival Mental, tornou-se evidente que cada espaço não se limita ao acolhimento da criação; o ambiente pode moldá-la, viabilizá-la ou constrangê-la.
No Museu de Benavente — particularmente no Espaço Arriscart, do seu polo Núcleo Museológico Agrícola —,
a criação acontece em diálogo direto com o território. A paisagem agrícola, os objetos do quotidiano camponês, as memórias de trabalho e as transformações contemporâneas do mundo rural ultrapassam o conceito da cenografia; estamos falando de matéria viva. Trabalhar ali implica reconhecer que o território é coautor daquilo que criamos. A escala do Museu, distante da lógica metropolitana e da pressão constante por visibilidade, favorece relações de proximidade. O público se reconhece no espaço e nas pessoas do Museu. Muitas vezes identifica nos objetos expostos fragmentos da própria história familiar. Essa proximidade altera a mediação e transforma o processo criativo num encontro entre tempos: passado, presente e futuro em negociação.
Se o museu de território pode abrir-se à escuta e à relação, a escola apresenta uma configuração mais ambígua. A escola é, potencialmente, um dos lugares mais poderosos para a ação criativa: é ali que a imaginação se forma, que os sujeitos experimentam linguagens e constroem pensamento crítico. Apesar disso, o espaço escolar é frequentemente vivenciado de forma rígida e pouco flexível. As carteiras organizadas em fileiras, os horários compartimentados, os currículos prescritivos e a constante vigilância institucional imprimem uma sensação de limite e restrição. Muitos professores sentem que ali quase nada pode ser transformado. Qualquer alteração no espaço, seja mover as mesas, ocupar os corredores, trabalhar no chão, produzir algum ruído criativo, pode ser alvo de reprovação. Reclama-se do barulho, da desarrumação, da quebra da rotina. A criação, que requer liberdade, autonomia, movimento e risco, entra em confronto com a solidez de uma rotina com instalada previsibilidade.
Essa perceção de falta de liberdade é estrutural. O ambiente da educação formal foi desenhado para organizar e normatizar corpos e tempos. Nesse contexto, a ação artística surge muitas vezes como exceção tolerada, e não como prática integrada. No entanto, é precisamente aí que a criação revela a sua potência transformadora. Quando uma sala se reorganiza para acolher um processo artístico, ainda que temporariamente, algo se desloca. O espaço deixa de ser apenas funcional e torna-se experiencial. A arte introduz fissuras na rigidez aparente e demonstra que o espaço pode ser reinventado. A tensão entre controle e liberdade manifesta-se, paradoxalmente, como um motor criativo.
Se o museu trabalha a partir da memória e a escola enfrenta a rigidez institucional, a rua apresenta outro tipo de desafio e potência. Na rua, a arte não solicita autorização ao cotidiano, ela simplesmente opta por interrompê-lo sem pedir licença. No projeto entreLaços e na performance Muda-mundo: queres mudar o mundo comigo?, a criação desloca-se para o espaço público como gesto de suspensão e convite. No primeiro caso, por meio da brincadeira e do entrelaçamento simbólico entre pessoas, a ação artística instala o jogo onde antes havia apenas passagem. Corpos que se cruzavam sem se olhar passam a se relacionar. A rua se transforma em um espaço de encontro. Já na performance Muda-mundo: queres mudar o mundo comigo?, a interrupção assume um caráter mais direto de tomada de consciência. A pergunta, simples e frontal, desarma automatismos. Quem passa é convocado a parar, a pensar, a se posicionar. Trata-se de provocar um deslocamento interior. A arte cria uma situação em que cada pessoa é convidada a reconhecer a própria responsabilidade na construção do mundo que deseja habitar.


Há ainda um outro território que reconfigura profundamente a experiência criativa: a natureza. Nas propostas desenvolvidas para o Festival Mental em 2023 e 2025, em Lisboa, e em 2025, em Pedras Salgadas, a criação deslocou-se para espaços verdes, parques, onde o ritmo urbano se dilui e o corpo reencontra outra cadência. Em Lisboa, inserir práticas artísticas em ambiente natural significou criar uma pausa no excesso de estímulos da cidade. A natureza funcionou como dispositivo de desaceleração, escuta e autoconhecimento. O chão, as árvores, o vento e a luz tornaram-se elementos ativos da proposta, influenciando a duração, o silêncio e a qualidade da atenção dos participantes.
Já em Pedras Salgadas, o contexto natural foi a condição dominante. Ali, a paisagem envolvente, a vegetação, a água termal, o ar mais rarefeito instauraram uma predisposição diferente para a experiência artística. O corpo tornava-se mais presente, mais sensível. A criação emergia menos da
palavra e mais da perceção. A natureza não permanecera inerte como um mero pano de fundo. Ela reorganizou o tempo interno dos participantes e ampliou a dimensão sensorial da proposta. Criar ao ar livre desloca hierarquias: não há paredes que delimitam claramente o dentro e o fora, o público e o privado. O espaço expande-se e, com ele, expande-se a possibilidade de relação.
Comparar museu, escola, rua e natureza é reconhecer que cada território produz condições distintas para a emergência da arte. No museu de território, a criação encontra profundidade na memória e no pertencimento. Na escola, confronta-se com estruturas rígidas que podem limitar, mas também revelar novas possibilidades quando tensionadas. Na rua, atua pela interrupção do automatismo e pela convocação direta à relação. Na natureza, desacelera, amplia a escuta e inscreve o corpo no centro da experiência.

Nenhum desses espaços é neutro. Todos carregam normas, ritmos e expectativas que moldam comportamentos. A ação criativa movimenta-se precisamente na fricção com essas condições. Onde há excesso de controle, a criação abre fissuras. Onde há esquecimento da memória, ela reativa narrativas. Onde há automatismo, ela o suspende. Onde há dispersão, ela concentra. Criar é, em grande medida, reconfigurar o espaço, seja ele físico ou simbólico.
Que lugares, então, movimentam a ação criativa? Aqueles que permitem deslocamento. Aqueles onde é possível rearranjar mesas e pensamentos, interromper percursos habituais, escutar o que a paisagem tem a dizer. A criação precisa de chão, mas precisa também de brecha. Entre a estabilidade do museu, a rigidez da escola, a imprevisibilidade da rua e a expansão sensorial da natureza, a arte encontra diferentes modos de existir. E é nessa capacidade de atravessar territórios e reinventá-los que encontra força para persistir, transformar e convocar à ação.

Conheça o Lugar Específico.
Susana Alves
Susana Alves trabalha na interseção entre arte, educação e desenvolvimento humano, enquanto mediadora cultural, arte-educadora, formadora e terapeuta. Licenciada em Psicologia da Educação, construiu um percurso híbrido que cruza práticas artísticas, pedagógicas e somáticas, integrando formações em áreas como Educação pela Arte, Pedagogia da Dança, Filosofia para Crianças, narração oral, Art Thinking e abordagens terapêuticas. É fundadora e diretora do Lugar Específico – entre Arte e Educação, plataforma em que investiga e desenvolve práticas de mediação, criação participativa e formação. Foi cofundadora do Largo Residências e é formadora certificada de professores, sendo também responsável pelo curso de Pedagogia da Arte na Nextart. Tem agora mais de 20 anos de experiência e, ao longo do seu percurso, colaborou com instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian, a Culturgest e o Museu Coleção Berardo, concebendo projetos de mediação artística para diversos públicos, programas educativos e formação para educadores. O seu trabalho articula arte contemporânea, corpo, natureza e comunidade, explorando a experiência artística como espaço de encontro, questionamento e transformação. Interessa-lhe particularmente o potencial da arte como prática de consciência e como forma de deslocar o olhar sobre o cotidiano.



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