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Na real, eu sou Nenesurreal

  • Foto do escritor: Célia Barros
    Célia Barros
  • 4 de dez. de 2025
  • 11 min de leitura

Atualizado: 8 de dez. de 2025

Entrevista por Célia Barros e Gabriela Leirias




Nenesurreal
› Fotografia: Acervo pessoal

Nenesurreal é artista plástica, grafiteira e educadora social negra e periférica que, desde 1996, integra arte, identidade e transformação social em sua trajetória em Diadema e São Paulo. Criadora de uma marca de roupas plus size pintadas com técnicas de Graffiti, conecta seu trabalho a movimentos negros, feministas, hip-hop e LGBTQIAPN+. Já expôs em instituições como oCCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), o Sesc-SP e a Casa das Caldeiras, além de participar de festivais nacionais e internacionais. Foi consagrada com o Prêmio Sabotage (2016)e homenageada pela organizaçãoAção Educativa no Dia do Graffiti (2018). Entrevistamos a artista especialmente para esta edição.




O Levante Quero iniciar o meu discurso com a célebre frase da lendária Lélia González: "O lixo vai falar, e é numa boa!". E eu complemento que será sem massagem. Eu sou as ruas e as quebradas, represento as vozes de mulheres que foram apagadas pela história. Sou artista e ativista, sou a inimiga número um do Estado, sou o pesadelo da classe média. Sou aquela que o sistema tentou matar. Sou também como as outras, porém sou tantas coisas e também às vezes não quero ser nada disso. Na real, eu sou Nenesurreal. Simplesmente aquela preta que é mãe, avó, amiga, educadora, namorada, que há 58 anos é sobrevivente e narradora de uma guerra sem fim. Meus relatossão transmitidos através dos muros, com sprayeu traço a minha revolução. Por onde eu passo,deixo minhas marcas coloridas, o universo sem contos e sem fadas, apenas mediano caos. Hoje eu quero saudar as mulheres pretas, quero saudaras mulheres pretas artistas, quero saudar as minhas colegas grafiteiras pretas que quase desistiram e também as que desistiram. Quero também saudar as mulheres pretasque morreram para eu chegar até aqui. Sou a terceira mulher e a segunda mulher preta a ser homenageadapor reconhecimento pela trajetória pessoal e do Graffiti.E assim desejo que isso se torne algo comum. Quero olhar ao meu lado e ver mais mulheres pretas comigo, ocupando as ruas em todos os passos possíveis, pois nós resistimos e existimos. Ser quem somos não deveria ser um pesar e sim uma grande dádiva, pois carregamos na pele a realeza das nossas ancestrais.

— Ketty Valencio


A autora escreveu este texto por ocasião da homenagem a Nenesurreal pela organização Ação Educativa no Dia do Graffiti (2018).



Nenesurreal
Cabeçudas. Ocupação Raquel Trindade Sesc 24 de Maio, 2022 Fotografia: Acervo pessoal

LATENTE - Como você define a sua atuação? Poderia nos contar um pouco da sua história?


Eu sou Nenesurreal, mulher preta, periférica, mãe, avó, sapatão, sobrevivente das artes e do Graffiti. Quando as pessoas me pedem para contar a minha história, eu gosto de responder com o texto "O Levante", da Ketty Valencio, que fala muito sobre mim. Sobre esta pessoa inquieta, que por vezes quer parar. Mas sempre acontece alguma coisa que me dá forças para continuar. Para mim, este texto da Ketty é uma oração. Também é um pedido de licença para estar nos lugares.

Eu cresci aqui em Diadema, São Paulo. Moro na mesma rua há 54 anos, uma rua branca, com vários desafios. Atuo muito dentro do movimento da cultura hip-hop, mas também fora dele. Para além do Graffiti, também sou pintora, escultora, faço instalações, participo de exposições e tenho uma grife de roupa plus size. Além disso, atuo como educadora, minhas ações são a partir da oralidade, com rodas de conversas e trocas com outras mulheres pretas.


Comecei na rua por meio do Pixo, porque era uma forma de conhecer os territórios, de estar presente e me sentir pertencente. O Pixo é um movimento de demarcação de território. Andei com os pichadores, mas nunca usei a grafia, sempre tive a necessidade de ter um volume, de ter um personagem ali. O Pixo era um lugar onde eu podia ser. É muito diferente você pintar na rua ou pintar dentro do ateliê, dentro de um espaço. Na rua, a arte não te pertence.


Nenesurreal
Cabeçudas. Exposição Diversos Unibes Cultural, São Paulo , 2024 Fotografia: Filipe Florentino

LATENTE - Como se deu o seu aprendizado artístico e em que contextos aconteceram essas trocas de saberes?


Ainda pequena, passei algum tempo com minha avó que morava em Januária (MG), do lado do rio São Francisco, onde passa o vapor. Ela era contadora de histórias, rendeira, fazia crochê, renda de bilros. Sempre fui muito enérgica, e, para me acalmar, ela me dava um novelo de lã e dizia: “Desata os nós, menina. Desata todos os nós”.

Ao longo do meu caminhar, principalmente no movimento da cultura hip-hop, atuando como grafiteira eme posicionando, fui percebendo o que era esse desatar dos nós. Eu sou uma pessoa muito inquieta com as mãos, preciso estar fazendo algo, mesmo que não dê em nada. Isso sempre me acalmou. Aquela inquietude, ela transformava em observação: "Presta atenção nessa árvore, ela tem várias cores. Percebeu que mudou a cor?". Tenho 58 anos e quero pintar na rua até os 60. Se formos fazer uma pesquisa de grafiteiras negras com 50 anos, dificilmente as encontraremos. No entanto, vamos encontrar vários homens de 70 anos pintando. A história dos homens está nos livros, nos vídeos, está nos documentários, está em todos os lugares. Quando você procura a história de mulheres no hip-hop, sem este recorte específico, você não encontra. O movimento foi narrado historicamente como um movimento masculino. Só que, sem as mulheres, esse movimento nem existiria.


Quando eu estava na quinta série, um dia chegou um professor novo, um professor lindo, preto, na escola estadual. Aquilo me mostrou uma possibilidade de atuação. Naquela época, eu já de- senhava, mas tinha muita dificuldade de mostrar o que eu fazia. E aquele professor, Roberto, me provocava para desenhar todos os dias, falava da importância do desenho e da arte para o território em que eu vivia. Foi uma pessoa que me incentivou muito. A adolescente que eu era naquele momento percebeu que o desenho podia levar para outros lugares.


Fui mãe muito nova e fiquei viúva também muito nova, aos 19 anos. E a minha genitora sempre se preocupou com a questão do conhecimento para poder acessar os lugares. Então, eu fiz todos os cursos do mundo, desde datilografia, corte e costura, telefonia, até o de auxiliar de enfermagem, que acabou sendo a forma de trabalho para criar minha filha. Tenho mais de 20 anos na área da enfermagem como instrumentista de ortopedia. Mas a arte sempre esteve ali. Quando eu estava de folga, era o meu hobby, a minha terapia. Diadema foi um espaço muito importante para a cultura de São Paulo. Ainda hoje, preserva espaços culturais que oferecem vários cursos. Isso foi muito importante, até para criar minha filha, que cresceu dentro desses centros de cultura fazendo capoeira, break... Ela foi aluna de vários mestres.


Um dia, fui participar de uma performance a convite de uma amiga, para colocar a minha arte numa camiseta, e, se eu tivesse na hora cem camisetas, teria vendido todas. Ali eu percebi a possibilidade de sobreviver da arte, sobreviver do Graffiti. Foram aumentando os convites, os trabalhos remunerados, até que chegou um momento em que eu escolhi a arte. Era um grande risco, mas escolhi a arte como meio de sobrevivência, como profissão. Hoje, quando me perguntam sobre a minha profissão, eu respondo: sou grafiteira. Pago os boletos com a minha arte, a partir do que eu penso, a partir do que eu faço com a minha arte.


É o que me dá voz, o que me permite mudar o que é fadado para nós mulheres pretas: geralmente, essas profissões de servir. A arte me motiva, me faz respirar, me faz levantar. Então, quem me ensina é a rua. Quem me ensina são as pessoas que eu encontro, as encruzas que eu faço a partir desse movimento, tanto do Pixo como do Graffiti, que é, ainda, a provocação que ele nos faz para que nos apropriemos dos espaços para nos fazer ser vistos.



LATENTE - Você exerce uma resistência dentro do próprio movimento do Graffiti. No seu entender, quais são as principais questões que esse movimento cultural enfrenta?


Só é Graffiti quando está na rua. Se está dentro do espaço, é uma vertente do Graffiti. Assim como a pichação, Graffiti não foi feito para ser “legal". Quando as pessoas se apropriam desse movimento, ele se torna algo legalizado e bonito, uniforme. Mas o Graffiti não existe para ter uma estética bonita, ele foi feito para ser um trabalho de provocação, de posicionamento político. Não foi feito para combinar com o sofá, com a sala.


As barreiras do patriarcado, do machismo, do racismo, as questões de gênero e de classe, todas estão presentes na nossa sociedade de maneira geral. Como faço parte do movimento da cultura hip-hop, que é um movimento que pede atuação, eu preciso passar à ação. E sempre quando se tratava de mulheres, mulheres no palco, mulheres na dança, mulheres no Graffiti, nós sempre estávamos em segundo plano. Mas o movimento hip-hop não se fez sem mulheres. Se formos pesquisar a história da cultura hip-hop, onde ela nasceu e o porquê de ela nascer, confirmaremos a origem a partir de uma mulher (1).


E o Pixo me faz essa provação de não aceitar, de me posicionar, o que foi um risco para mim, porque, a partir do momento em que eu começo a me colocar, passo a sofrer ataques para além do apagamento já naturalizado por ser uma mulher preta. Porque o Pixo é um movimento que me obriga a ter posicionamento, que me obriga a ter atitude. Eu só vou para a rua, e mulheres só vão para a rua, porque o movimento pede isso: atitude, mesmo sabendo que a rua não acolhe mulheres, não acolhe diversidade. Quando estou de frente para o muro, minhas costas estão vulneráveis, e, por eu ser mulher, é quase um convite para o meu corpo ser invadido.



LATENTE - Neste sistema perverso em que vivemos, tudo pode virar produto. Você acha que alguns artistas precisam se adaptar para participar de uma galeria? Como você percebe essa situação?


O movimento da cultura hip-hop é atitude. O que você faz com essa atitude é o que vai determinar quem é você dentro desse movimento, quem você quer ser. Como você quer estar presente, e não tem nada a ver com fazer um 3D super-realista.

Mas quando esse movimento cai na mão de pessoas brancas, homens cis brancos, acaba sendo moldado. A partir daí, passam a exigir técnicas, exigir corre de rua, ou até blackbook (2).


A nossa meta, de quem faz Graffiti, é conseguir realizar pelo menos três trabalhos ao mês, porque para você poder evoluir precisa do estudo, que é fazer, fazer, fazer. Eu não consigo bancar isso, porque uma lata de spray custa R$ 30, e eu gosto de usar todas as cores. Como é que eu banco isso? Quando eu comecei a fazer os Cabeçudos, a ideia era ser personagem de vandal (3) , rapidinho, na rua, do jeito que eu gosto: sem muita simetria, sem muita técnica; porque a técnica também nos impede, principalmente as mulheres pretas, de conseguir evoluir. Como você pode evoluir no Graffiti se você não consegue fazer pelo menos três trabalhos ao mês? Hoje, os personagens Cabeçudos transicionaram: são mamas cabeçudas. São sete mamas cabeçudas. Elas são tensas, intensas e incríveis.


Nenesurreal
Olhar do outro, estigma do corpo 1. Detalhe da instalação. Acervo Pinacoteca Municipal de Mauá. Fotografia: Bruno Amorim


LATENTE - Sua trajetória é permeada por ações coletivas, por fazer parte de e por criar novos movimentos. Como você entende a importância de estar junto?


A gente tem algumas palavras que são muito importantes, até para a gente se sentir pertencente, e uma delas é "tamo-junto”, porque nada se faz sem o coletivo. Normalmente, as mulheres sempre vão aplaudir os caras, ver os caras pintar, dar fundo no muro para eles pintarem, mas, dificilmente, eles fazem isso pelas mulheres. Então, começamos a organizar eventos femininos. O movimento do hip-hop tem mais de 50 anos, mas só há pouco mais de dez as mulheres conseguem se organizar e fazer eventos que possam acolher mães, que tenham um banheiro decente, que supram a preocupação com comida ou que abarquem as várias pautas sobre as necessidades do corpo de uma mulher dentro desses ambientes. Não é sobre a minha voz, não é apenas a voz de outra mana: foram várias vozes femininas gritando “A gente tá aqui e a gente faz, sim! A gente faz muros enormes, com trabalhos incríveis!”.


A Ocupação das Minas nasceu por conta de uma violência que eu sofri nas redes sociais, a qual nós optamos por transformar em arte. Ocupamos a Casa do Hip-Hop de Diadema durante um dia inteiro com muitas atividades organizadas e protagonizadas por mulheres cis, por mulheres trans e LGBTQIAPN+. Foi como a gente gosta de receber em casa: com comida e espaço para as crianças. Não pedimos permissão, apenas fomos lá e ocupamos a Casa do Hip-Hop Diadema (4). E, depois daquela energia toda, eu e a DJ Aline Vargas (1985-2024) resolvemos transformar o espaço onde eu moro na Residência Artística - Ocupação das Minas LGBTQIAPN +, que hoje é Ponto de Cultura. Hoje somos eu, a Renata Reis e a Thaís Menezes, que também é curadora, cuidando para esse espaço não morrer e continuar a receber várias pessoas.



LATENTE - Você tem uma marca de roupa plus size. Como surgiu essa ideia?


Eu comecei a fazer roupa para mim, porque o movimento também usa isso: para ir à rua e disfarçar o corpo usamos roupas largas, para nos proteger das violências urbanas. E o movimento ensina para nós que isso é moda. Tanto que hoje, se a gente for olhar, as grandes marcas estão se apropriando dessa estética, basta ver a estética do chinelo com meia: na quebrada, isso não

é moda! É assim usado porque muitas vezes a pessoa só tem um tênis, e se quer esse mesmo tênis para usar durante o fim de semana, limpo, então, adota o chinelo com meia no dia a dia. E aí as grandes marcas se apropriam dessa ideia e dizem que agora é moda.


Ou por exemplo: as mães trabalhavam na casa dos ricos, e as patroas davam a elas roupas que geralmente eram grandes. As meninas, então, pegavam um barbante, colocavam na cintura, amarravam a calça larga, vestiam o moletom largo, a camiseta larga. Hoje isso está nas grandes marcas, mas é uma moda da quebrada, da periferia, da favela, do movimento da cultura hip-hop. Porque a gente pegava essa roupa e a transformava!


A partir daí, eu comecei a fazer peças, pintar camisetas, conseguir camisetas grandes, desenhar vários macacões. Eu gosto de chamar essas roupas de “telas andantes”. Acho que a roupa fala muito da gente. E sempre me lembro dessa vivência com a minha avó, que era crocheteira, fazia macramê. Fiz várias coisas na vida, pintei com muitas pessoas, mas chegou um momento em que eu precisei de outras coisas. Quando me dei conta, estava fazendo roupa. É sobre o nó: o nó do Graffiti, o nó da pintura, do crochê.


Meu sonho é fazer uma exposição na qual eu consiga colocar todo esse fazer; atar esse nó, ao invés de desatar. Hoje eu estou num momento muito especial com a minha arte, consegui colocar as Cabeçudas em grandes escalas, nas empenas, nas telas, nos desenhos, nas roupas. Agora, estou num processo de modelagem, quero levá-las para a escultura. A arte só faz sentido se fora partir da sua verdade. Só depois vai fazer sentido para as outras pessoas. O que você não consegue colocar em palavras você coloca nas artes.


Nenesurreal
Cabeçudas. Fotografia: Pimp My Carroça

NOTAS


1 Vozes femininas como MC Sha-Rock, MC Lyte e o trio

Salt-N-Pepa estiveram em evidência desde o início do movimento, mas sempre com pouca visibilidade: goethe. de/prj/hum/pt/gle/26323795.html

2 Um blackbook é um caderno ou bloco de desenhos usado por grafiteiros para desenhar tags, throw-upse peças de Graffiti. É chamado assim porque é uma tradição da cultura hip-hop usar livro ou bloco de capa dura preto.

3 A expressão "vandal" significa que a ação busca ocupar e reivindicar um espaço urbano. Ao fazer isso em locais de grande circulação ou visibilidade, os pichadores marcam ali a própria presença

e também a de seus grupos.

4 Inaugurada em 31 de julho de 1999, a Casa do Hip-Hop de Diadema foi a primeira do gênero da América Latina, tornando-se uma referência na comunidade.

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