Residência Casco no Pós-Balsa: arte, extensão e participação social
- latenterevista
- 8 de dez. de 2025
- 9 min de leitura
— Lola Fabres e Luciano Nascimento

Nosso projeto Casco nasceu em 2021, no sul do Brasil–no entorno do complexo da Região Hidrográfica das Bacias Litorâneas–, abarcando 12 distritos da área rural do litoral norte gaúcho. Mas foi apenas em 2023 que mudou de endereço e passou a direcionar o foco de atuação ao território do Pós-Balsa, ao extremo sul de São Bernardo do Campo, localidade banhada pelas águas da represa Billings, no estado de São Paulo.
A iniciativa nasceu do desejo de deslocar práticas e metodologias do campo da arte para contextos de caráter rural e periurbano. Sua proposta parte do encontro entre arte e território como experiência crítica e situada, buscando, portanto, experimentar modos de integração que não se baseiam na replicação de modelos institucionais, mas na construção de espaços de pensamento compartilhado entre artistas e comunidades locais. Estruturado a partir da observação das dinâmicas sociais, históricas e ambientais das regiões onde atua, o projeto incentiva a produção de práticas artísticas e pedagógicas relacionadas a estes territórios, contribuindo para fortalecer memórias, vínculos comunitários e dinâmicas autônomas de cultura.
Pelas encostas da chamada Serra do Mar, o Casco nasceu no Rio Grande do Sul originalmente como um programa de residência de caráter imersivo, com perfil interdisciplinar, engajado em princípios da chamada pesquisa situada e na colaboração entre artistas e atores locais das comunidades onde trabalhava. No entanto, na primeira edição, por estar atrelado à lógica dos editais de cultura estatais (neste caso, via Lei Aldir Blanc), seu período de realização ficou restrito –com início, meio e fim programados. Tínhamos na continuidade, porém, um valor que nos parecia central.
Ao retornarmos para São Paulo, onde atualmente residimos, iniciamos uma aproximação com a UFABC (Universidade Federal do ABC), com o intuito de estabelecer um elo institucional que desse sequência e sustentação às ações do Casco. Esse movimento resultou em nossa vinculação como pesquisadores externos à universidade, abrindo espaço para uma articulação mais consistente entre prática artística, investigação territorial e formação. Foi a partir dessa parceria que se tornou possível o direcionamento de nossa atuação para a região do Pós-Balsa, território
de grande relevância ambiental e sociocultural no extremo sul de São Bernardo do Campo. Dessa colaboração nasceu o Casco Pós-Balsa, projeto de extensão que consolida a dimensão pública do programa ao articular pesquisa aplicada, processos formativos e engajamento contínuo com a comunidade local.
Pós-Balsa é o nome popular dado a um conjunto de bairros localizados no município de São Bernardo do Campo, situado além do acesso à balsa que cruza a represa Billings, rumo ao Sul. Devido à barreira artificial imposta por esta represa, a região se desenvolveu de forma isolada do centro urbano, o que contribuiu para que mantivesse um papel crucial na preservação de mananciais, bem como da fauna e da flora locais.

Reconhecendo a importância de aproximar a universidade desse contexto, organizamos um programa de residência artística como intuito de integrar a comunidade de pesquisadores e estudantes da UFABC com profissionais do circuito das artes visuais e com agentes culturais e educacionais da região. Como metodologia, apostamos nessa triangulação de saberes, tendo as artes como um ferramental de intersecção.
Afinal, pesquisadores, artistas e outras lideranças da comunidade ocupam hoje um papel central na defesa da preservação socioambiental desse lugar, haja vista que a localidade enfrenta, atualmente, episódios sensíveis de disputas territoriais.A região tem localização estratégica: encontra-se a meio caminho entre o porto de Santos e a capital paulista, e parte da Rodovia dos Imigrantes cruza seu território.
Isso a torna alvo constante de pressões por expansão urbana, especialmente sobre áreas de mananciais.A tentativa constante de revisão do Plano Diretor de São Bernardo do Campo tem evidenciado esta situação. De um lado, interesses econômicos defendem a conversão de áreas do Pós-Balsa –atualmente, classificadas como rurais e protegidas pela Lei Estadual 13.579/09, por serem áreas de recuperação e preservação de mananciais– em zonas urbanas “com restrição”, abrindo espaço para grandes empreendimentos, a exemplo de centros de distribuição e galpões, em terrenos hoje cobertos por matas nativas às margens da Imigrantes; de outro, movimentos sociais, comunidades locais e coletivos ambientalistas alertam para os impactos da urbanização sobre territórios de nascentes de rios –e com significativa presença de mata com espécies típicas da Mata Atlântica–, bem como para as ameaças aos modos de vida tradicionais e às aldeias guarani que habitam a região.
Essa disputa escancara a tensão entre um modelo de desenvolvimento voltado ao crescimento econômico imediato e a importante luta pela preservação de recursos ambientais estratégicos, indispensáveis para a qualidade de vida da metrópole e de quem reside naquele local.
É nesse cenário de urgências que entendemos que iniciativas artísticas poderiam ganhar relevância, ao visibilizar a região e suas contradições, elaborando novas formas de diálogo com a paisagem e com as batalhas internas que ali têm se desenrolado. Além disso, é nesse contexto também que a presença e a participação da pesquisa e da extensão universitária podem auxiliar na construção de pontes entre diferentes atores sociais: articulando saberes artísticos e acadêmicos com conhecimentos locais.
Em sintonia com esses preceitos vale ressaltar diretrizes recentes, comunicadas pelo MEC (Ministério da Educação), que visam estimular projetos de extensão universitária a compartilharem do esforço de fortalecer a participação social nos territórios (1).
Em termos práticos, nossa ação de residência, agora também um projeto de extensão, foi se desenvolvendo de forma processual e colaborativa. Começamos nos aproximando das lideranças comunitárias e dos agentes locais para o reconhecimento do território e das suas singularidades.
Esta primeira etapa envolveu visitas de campo, formação de redes, levanta- mento de dados, pesquisa bibliográfica e escuta ativa junto à comunidade.
A partir desse mapeamento inicial, montamos uma equipe de bolsistas universitários ligados a diferentes cursos de licenciatura (tanto das áreas de humanas como das de exatas e biológicas) que passou a atuar na coleta e sistematização de informações histórico-geográficas, ambientais e socioeducacionais. Os saberes produzidos nesse processo passaram a ser compartilhados em encontros e seminários multidisciplinares organizados na universidade com o intuito de fortalecer embasamentos teóricos e promover diálogos entre a equipe do projeto e sua capacitação (2).
Para estruturar o Casco Pós-Balsa, a equipe foi constituída por um grupo formado por bolsistas pesquisadores da UFABC, artistas vinculados ao circuito de artes visuais e representantes de diversas associações e instituições do território em questão.

Entre eles estavam o Museu Estadual da Cultura Nordestina (de São Paulo), a ONG Aldeias Infantis SOS (organização não governamental internacional que oferece cuidado, proteção e apoio a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade), a Associação Cerâmicas Baluarte (do Pós-Balsa), a Escola Estadual Omar Donato Bassani (de São Bernardo do Campo) e o espaço Lar Christian (do Pós-Balsa, que realiza atividades de marchetaria, marcenaria e oficinas de pintura).
Ao longo do segundo semestre de 2024, a equipe do projeto Casco, por nós coordenada, passou a elaborar uma série de produções artísticas em diálogo com a paisagem e com as dinâmicas socioambientais do território. Narrativas locais e interações com os habitantes foram mobilizadas para explorar relações de cooperação e simbiose com a Mata Atlântica, materializadas em instalações de tecidos e bordados exibidos entre ruínas da região.
A memória cultural também virou tema central. Em parceria com o Museu Estadual da Cultura Nordestina, a artista Karlla Girotto do projeto incorporou à instituição totens com torrões dos solos dos estados nordestinos, destacando a matéria da terra como elemento físico e simbólico na construção de identidades e memórias afetivas. Pesquisas artísticas também investigaram o chamado lírio-do-brejo, espécie exótica de planta amplamente disseminada na região, analisando suas propriedades alimentares, usos locais e potencialidades sensoriais. O artista Vinicius Barajas estudou o solo argiloso exposto às margens da represa em períodos de seca, avaliando seu uso sustentável em processos como produção cerâmica, bioconstrução e geotintas, o que gerou séries de objetos e pinturas representando a paisagem local durante a estiagem. O artista Gustra Martin, morador do Pós-Balsa, também lidou com a matéria do barro, desenvolvendo uma pesquisa focada nos pés humanos e não humanos que habitam o território daquela comunidade. A investigação buscou problematizar o uso pejorativo da expressão “pés de barro”, frequentemente empregada para descrever de forma depreciativa os moradores afastados dos centros urbanos. Além disso, reflexões sobre o entrelaça- mento das águas do rio Pinheiros e do reservatório Billings foram documentadas em registros fotográficos, desenhos cartográficos e séries de pinturas pelo artista cubano Pavel Herrera, destacando os impactos da contaminação e das conexões bioquímicas e humanas entre esses corpos hídricos no contexto metropolitano de São Paulo.
Na edição seguinte, realizada no segundo semestre de 2025, outros trabalhos artísticos foram se desenvolvendo a partir de um segundo processo de imersão no território. Observando a arquitetura social dos cupinzeiros e suas complexas inter- dependências, a artista argentina Laura Khalloub criou instalações em cerâmica que operam como metáforas para dinâmicas de cooperação e de inteligência coletiva. Em outra frente, as investigações em aquarela e pintura de Bru Novaes passaram a fabular seres emergentes das profundezas da represa Billings, dando origem a universos imaginários que dialogam poeticamente com a paisagem hídrica local.
A presença do bambu como recurso abundante impulsionou Walter Alves, artista e mestre ceramista do Pós-Balsa, a desenvolver intervenções site specific e inspirou os alunos Lorena Faria, Marcos Vinícius e Éllen Luna na criação de instrumentos e composições sonoras, explorando as potências materiais e simbólicas deste elemento natural. Paralelamente, a artista chilena Camila Bardehle voltou seu olhar às megaestruturas da Avenida dos Imigrantes, refletindo criticamente sobre os im- pactos da urbanização e da especulação imobiliária no entorno da localidade.
Também a partir de um gesto de aproximação com a comunidade, o trabalho de Andrea Lalli articulou bordado, costura e coleta de relatos orais, registrando a centralidade da pesca e a relação cotidiana dos moradores com a represa. Por fim, outras pesquisas artísticas exploraram a presença e o poder germinativo de sementes, evocando ciclos de continuidade, resistência e permanência da vida no bioma local.
Acompanhando o programa de residência artística, alunos de Licenciatura em Ciências Humanas, Naturais e Exatas da UFABC passaram ainda a atuar como educadores na Escola Omar Donato Bassani (única unidade estadual da região), encabeçando exercícios de coleta de histórias orais com o intuito de iniciar um processo de construção de pertencimento identitário local. Neste contexto, passaram também a imaginar formas de entrecruzar os conhecimentos mobilizados pelas práticas artísticas produzidas a partir do programa de residência com as memórias e experiências compartilhadas em sala de aula.
Ao longo do percurso, foram produzidos ainda outros registros visais e obras artísticas, além de um curta-documentário (3), culminando em uma exposição final que buscou valorizar a criação coletiva e os saberes partilhados ao longo da trajetória.Por meio desses processos, a proposta do Casco foi sendo concebida como uma plataforma artística e educacional para fomentar a compreensão crítica do Pós-Balsa como parte de um território hidrossocial maior, conformado pelo entorno da represa Billings e suas correlações. A partir do entendimento desse entorno, o projeto tem visado integrar narrativas locais, práticas culturais e reflexões sobre legislações e dinâmicas sociopolíticas, apoiando lutas por justiça socioambiental e dialogando com localidades que compartilham de desafios semelhantes.
Em paralelo, o programa Casco buscou identificar formas de apoiar os movimentos de resistência, fomentando instâncias de reflexão crítica e conscientização ambiental não apenas
em espaços formais (junto à Escola Estadual Omar Donato Bassani), mas também em contextos educacionais não formais. Consequentemente, vem sendo concebido um roteiro artístico-socioambiental que percorre pontos emblemáticos do Pós-Balsa, prevendo atuações educacionais para além do espaço escolar.
Destinadas a alunos e moradores da região, visitas guiadas por moradores e elaboradas a partir de mapas desenhados por alunos da universidade têm como intuito interconectar os locais
onde as obras foram instaladas durante a residência, incluindo nesse percurso um debate sobre as áreas ameaça-das pela reclassificação do projeto do novo Plano Diretor. Selecionados por relevância histórica, simbólica e ambiental, os pontos de visitação carregam o potencial de estimular reflexões sobre os desafios e embates enfrentados pela comunidade, promo- vendo debates coletivos em torno das lutas por preservação e resistência.
Transformar o programa de residência em um projeto de extensão não foi conquista imediata. É, ainda, um esforço que vem exigindo negociação e questionamentos sobre como conciliar a autonomia do projeto com os requisitos institucionais da universidade, bem como dos editais de captação de recursos ligados à nossa iniciativa. Etapas deste processo permitiram que o Casco não apenas se estabelecesse formalmente, mas também pensasse em estratégias de engajamento de longo prazo com a comunidade local, reafirmando seu compromisso com práticas colaborativas e situadas, enraizadas in loco.
Ao promover espaços de escuta e de reflexão crítica coletiva, entendemos que a universidade, junto a práticas ligadas à arte contemporânea, pode fortalecer iniciativas já existentes, ampliar a visibilidade das demandas locais e contribuir para a formulação de estratégias que conciliem justiça social, preservação ambiental e reconhecimento das culturas vivas das localidades com as quais se propõe a trabalhar.


NOTAS
1 Ver Portaria no 193/2025 da Secretaria-Geral da Presidência da República
e o documento de referência do MEC “Extensão em Participação Social”.
2 Para acompanhar mais informações sobre as pesquisas, a metodologia e os trabalhos artísticos desenvolvidos ao longo do programa acesse o site casco-pos-balsa.com.
3 Intitulado Casco Pós-Balsa. Acesso em: youtube.com/@cascoresidencia349.
Lola Fabres
É curadora e doutora em História, Teoria e Crítica da Arte (ECA-USP, 2023), atuando nas intersecções entre arte, território e meio ambiente, com foco em metodologias colaborativas e pesquisa situada. É pós-doutoranda pelo PPGCA/UFF e integra o grupo de pesquisa Ynterfluxes Contemporâneos das Artes-Comunidade-Natureza (CNPq). É também pesquisadora da UFABC (Universidade Federal do ABC), onde coordena, junto com Luciano Nascimento, o projeto Casco Pós-Balsa. Atualmente, sua trajetória combina prática curatorial, ação educativa e investigação crítica em contextos latino-americanos, com ênfase em abordagens interdisciplinares e de base comunitária.
Luciano Nascimento
É doutor em Estética e História da Arte (PGEHA–USP)e mestre em Estética e Filosofia da Arte (UFOP).Foi professor de Sociologia da Arte e de Arte Contemporânea no curso de Artes Visuais (FMU-SP),é pesquisador vinculado à UFABC (Universidade Federal do ABC) e, junto com Lola Fabres, é coordenador do projeto de extensão Casco Pós-Balsa: Programa de Integração Arte e Comunidade (escola parceira - PRIPRILEI).





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