A sala de aula e os materiais educativos como potência criadora
- 3 de jul.
- 9 min de leitura
— Ana Helena Grimaldi
Nesta conversa com a Revista Latente, a artista e educadora Ana Helena Grimaldi reflete sobre processos coletivos, mediação cultural e os desafios e potências de pensar materiais educativos como espaços de experimentação artística e pedagógica. Ela compartilha a experiência de desenvolver o Trocas e olhares 2 – Acervo Sesc de Arte (1), material educativo realizado em 2024 baseado no Acervo Sesc de Arte com foco em artistas participantes de diferentes edições da Bienal Naïfs do Brasil.
Para Ana Helena Grimaldi, a arte e a educação caminham juntas. Ao longo de sua trajetória, ela participou da criação de diversos materiais educativos vinculados a exposições e acervos de instituições culturais, explorando as possibilidades de encontro entre artistas, estudantes e professores. Esses dispositivos, muitas vezes pensados para ativar experiências sensíveis e coletivas, tornaram-se também um campo fértil de criação.

Em que momento a arte tornou-se um lugar de criação para você? Como a educação e os materiais educativos chegaram na sua vida e na sua prática?
A arte e a educação foram escolhas da maturidade. As memórias mais antigas de ouvir essas duas palavras me vêm da infância, embora usadas de maneira separada. Com uma família de professoras, a educação sempre foi uma conversa constante. A palavra arte tinha um quê de magia, afeto, beleza, arranjo de cor e sabor. Minha avó, sempre que me pedia para arrumar a mesa, depois me perguntava: você fez com arte? E eu voltava pra conferir. Com arte, eu tinha que ir além. Depois de uma década trabalhando em minha primeira formação como analista de sistemas, uma virada inesperada me colocou em contato com aquilo que viria a ser minha grande motivação e vocação: criar, aprender e ensinar arte.
A Escola Comunitária de Campinas, antes de ser meu local de trabalho, surgiu como escolha para a formação do meu filho. Como mãe de aluno e artista da cidade, fui convidada a expor na Galeria de Arte da Escola e realizei um ensaio fotográfico a partir do espaço escolar, explorando com um olhar “pelas frestas” a arquitetura dos muros vazados da escola. As mostras da Galeria, que recebem artistas de toda a região, têm a potência de contagiar toda a comunidade escolar. Na ocasião, me envolvi com os estudantes conversando sobre meus trabalhos, ouvindo perguntas e provocando exercícios de olhar. Uma experiência de trocas e proximidade imediatas, juntando a arte e o cotidiano escolar.
Quando assumi as aulas de Artes Visuais no Ensino Fundamental 2 dessa escola, me senti amparada por diversos materiais e publicações educativas que me ajudaram na criação de aulas autorais. Para além dos planos didáticos e dos programas curriculares, esses materiais, muitas vezes criados a partir de exposições de diferentes instituições culturais, me estimularam a pensar em novas conexões possíveis entre artistas e entre áreas de conhecimento. Lembro-me até hoje do Lá vai Maria, projeto do Educativo do Centro Universitário Maria Antônia, que me ajudou a propor e sustentar conversas e práticas.

Como você percebeu que os materiais educativos poderiam vir a se tornar um lugar de criação na sua prática?
O trânsito constante com os estudantes para instituições, como a Bienal de São Paulo, e meu interesse por mediação e publicações educativas me levaram à Pós-graduação em Educação em Museus e Centros Culturais, em que me aprofundei nessa pesquisa. Esse percurso também me deu a oportunidade de participar, de forma colaborativa, da elaboração de diversos materiais e ações educativas em diferentes instituições.
Nesse processo, pude compreender o quão importante é se atentar às nuances que envolvem a elaboração de um material para que possamos estabelecer o diálogo com quem vai recebê-lo. Com quem estamos falando? Quem é o nosso público-alvo? São os professores? O público em geral? Os jovens estudantes? Nesse sentido, gosto muito de pensar nas palavras convite e proposição: convidar a criar, sugerir, propor, perguntar, desafiar...
E isso tem que se refletir na linguagem que usamos em todo o material, sem imposições, pensando sempre na acessibilidade do texto, no tamanho da letra, no bom entendimento das propostas, com cuidados na escolha dos materiais e sua relação com a realidade do público em questão, trazendo sempre dicas e sugestões de adaptações.
Utilizar perguntas aguça a curiosidade e faz pensar, questionar e elaborar uma resposta poética, estética. Devemos incentivar sempre que as ideias se desdobrem e se transformem.
Acredito que meu envolvimento com esse trabalho tenha me colocado em um dos lugares de criação mais interessantes: ser propositora e participante ao mesmo tempo. O desenvolvimento desses materiais possibilitou simultaneamente o planejamento, a criação e a vivência de suas ativações, sendo minha sala de aula um laboratório vivo, onde essas proposições são experimentadas — e, muitas vezes, até mesmo “testadas”.
No seu entender, o que é importante e quais são os desafios para criar um material educativo?

Vou citar alguns que considero bem importantes: um dos primeiros desafios é perceber e estabelecer quais são os pontos essenciais que podem potencializar experiências e aprendizados nas proposições educativas a partir dos artistas, de mostras ou de acervos que servem como referência para o projeto. Esses elementos, muitas vezes, aparecem inicialmente como palavras-chave, perguntas disparadoras ou eixos estruturais para o início do desenho do material e iniciam as possibilidades de abordagem e de criação.
Também é preciso lidar com limites bastante concretos, como prazos, recursos disponíveis e questões relacionadas a direitos autorais. Ao mesmo tempo, a estrutura e o formato do material precisam dialogar conceitualmente com o recorte artístico de referência e com as poéticas dos artistas ou com a pesquisa curatorial da exposição.
Outro aspecto importante é considerar os diferentes públicos para os quais esses materiais são pensados: podem incluir comunidades escolares, professores, estudantes de diferentes faixas etárias ou o público em geral. É importante buscar uma linguagem adequada a cada um desses contextos.
Além disso, sempre existe a preocupação de desenvolver materiais que sejam acessíveis em diferentes níveis: no conteúdo, no design gráfico, nas proposições práticas e também nos dispositivos que acompanham as exposições.
Por fim, há um esforço constante para criar proposições que gerem uma diversidade de desdobramentos possíveis, em vez de conduzir todos os leitores a um mesmo resultado.
Pensando nos materiais educativos como lugar de criação, de que maneira as experiências em sala de aula, com os estudantes criando, experimentando e ocupando o espaço escolar, podem transformar o modo como a arte é vivida e aprendida?

Viver a obra de arte e estar com “as mãos na massa", em vez de somente estudá-la, é o desafio que experimentamos juntos nas aulas de artes visuais — que, no Fundamental 2, anos finais (8º e 9º anos), são focadas no ensino da arte contemporânea, suas diversas linguagens e suportes.
Iniciamos uma pesquisa a partir da sua estreita ligação com a vida cotidiana, os objetos e os acontecimentos do mundo, a cultura de massa, a importância da ideia além do objeto artístico e a interação do público com as obras. E esse estudo culmina em exposições que investigam o espaço escolar como território de apresentação, em diálogo com a intervenção urbana, envolvendo todo o “público” da Escola.
Esse processo se dá em diversos projetos interdisciplinares, nos quais criamos e hasteamos bandeiras, colamos lambes nas paredes e grafitamos os bancos da praça. São trabalhos coletivos de autoria compartilhada, muitas vezes “arriscados”, frutos constantes de negociação com a coordenação e com o espaço, discutindo autoridade e autoria, manutenção e produção de resíduos. Fica evidente como a arte pode tensionar e provocar o pensamento crítico, gerar questionamentos e subjetividades, ampliar pertencimento e leituras de mundo.
Ter a sala de aula como ateliê, considerar estudantes e professores como parceiros de um coletivo, pensar suas criações como obras e olhar para os espaços comuns da escola como uma grande galeria. Esses são desafios e desejos que me acompanham, por acreditar que a educação só se realiza plenamente quando se torna experiência coletiva — e que é por meio da arte que essa dimensão pode encontrar sua forma mais potente.
Parte dessas experiências com materiais educativos também se desdobrou em projetos editoriais voltados para educadores, como o Trocas e olhares. Como surgiu esse projeto e quais eram seus objetivos?
Vivi com meus alunos e alunas as proposições que desenvolvi em diversas edições do Convite à Ativação do CCBB Educativo do Centro Cultural Banco do Brasil, realizados em parceria com o JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia, coordenado por Francisca Caporali e Samantha Moreira.
Essa experiência se aprofundou com esse novo convite para a criação do Trocas e olhares 2 – Acervo Sesc de Arte, um material pedagógico para educadores de todas as áreas de conhecimento como público-alvo. Trata-se de uma publicação com múltiplas vozes e referências, em diálogo com as habilidades e competências balizadas pela Base Nacional Comum Curricular – BNCC.
A princípio, o projeto seria baseado nas Bienais Naïfs do Brasil, mas decidimos expandir o material para uma pesquisa de obras selecionadas do Acervo Sesc de Arte, estendendo a ideia de arte popular para o campo da cultura popular. Isso possibilitou compreender e explorar de maneira mais ampla a construção de saberes e as produções simbólicas e imaginárias das comunidades brasileiras. Isso nos trouxe a oportunidade de ampliar também as conversas propostas e seus desdobramentos para além do universo artístico tradicional, muitas vezes eurocêntrico e colonialista, convidando para esse diálogo importantes nomes do pensamento contemporâneo, como o pensador e líder indígena Ailton Krenak; o pensador quilombola Nego Bispo; a artista e educadora Lua Cavalcante; a dramaturga, roteirista, atriz e curadora carioca Dione Carlos; entre outros.
Trabalhamos com um grupo de diferentes profissionais em colaboração simultânea entre pesquisa, conteúdo, edição, design e produção gráfica, coordenados pelo JA.CA. Foi um tremendo exercício de estar e fazer junto, com todos os desafios e crescimentos que um trabalho coletivo pode trazer.
Quando penso que vários materiais educativos já me acompanharam nas aulas, considero o Trocas 2 como uma turma inteira entrando junto comigo na sala de aula: pensadores, artistas, poetas e especialistas. E o mais bonito: o foco não é somente o universo da arte, são os assuntos do mundo e a possibilidade de abordá-los na sala de aula a partir de um olhar poético, artístico, sensível e atento às pautas atuais e urgentes, como a ecologia, o anticapacitismo e o antirracismo. E, também, convidando outras disciplinas e professores para o diálogo.
Para incentivar e facilitar a interdisciplinaridade, indicamos habilidades e competências da BNCC para cada eixo temático do material. Foi uma pesquisa intensa, que gerou uma seleção extensa de itens, e isso nos levou a pensar em um entrelaçamento, uma forma inventiva e sintética de apresentar essas possibilidades.

Algo se transformou na sua percepção como artista e educadora ao desenvolver o Trocas?
Muito! Entrar em contato com todo esse universo de obras, artistas, pensadores e também com a equipe toda que participou desse projeto me ensinou muito sobre respeito, tolerância, humanidade, educação, acessibilidade, trabalho em grupo e a força da nossa cultura.
Os assuntos e temas me emocionam, e agora converso com meus alunos sobre eles de forma muito mais segura. São assuntos importantíssimos em sala de aula, com a possibilidade de criação de parcerias entre disciplinas de diversas áreas de conhecimento.
Com o material já publicado e em circulação, quais foram as reverberações?
Ele ainda está em fase de distribuição e formação junto às redes de ensino das cidades das unidades do Sesc. Eu participei de dois encontros de professores em que o material foi distribuído e ativado. Foram ótimos!
O primeiro foi no lançamento em Piracicaba, durante a mostra com as obras que compõem o material e a presença de alguns dos convidados que participaram com os textos. O outro foi em Sorocaba. Foram encontros muito vivos, em que todos se envolveram muito. Deu pra sentir que conseguimos algumas coisas importantes para a boa aceitação do material: o deleite, a interatividade e a percepção da relevância dos temas/eixos. Nas ativações e ações poéticas, os resultados foram muito bonitos e surpreendentes, por serem diversos e carregados de invenção.
Gostaria que fosse mais fácil conseguir e compartilhar o material físico, uma publicação muito bonita e completa. Todo o material está disponível digitalmente, incluindo uma animação para cada eixo e um vídeo geral de formação articulando todo o projeto, possibilitando a circulação do material independentemente. Mas acredito que a riqueza do objeto físico pode trazer mais encantamento e engajamento, e estimular o uso do material também de forma digital.
NOTA
(1) Sesc São Paulo. Trocas e olhares: educação e artes visuais. 2. ed. São Paulo: Sesc São Paulo,
2024. Disponível em: https://www.sescsp.org.br/wp-content/uploads/2024/04/PUBLICACAO-Trocas_e_olhares-202400320-DIGITAL.pdf. Acesso em: 30 de março de 2026.
Ana Helena Grimaldi
É artista educadora, graduada em Análise de Sistemas e Artes Visuais com especialização em Educação em Museus e Centros Culturais. Sua pesquisa se concentra na poética conceitual encontrada na interseção entre arte contemporânea e educação, com um trânsito de ida e vinda entre a sala de aula e o espaço expositivo, atuando como professora, artista e arte-educadora. Como artista, participou de diversas exposições, sendo as mais recentes: Fabulação e arquivos de família, no Ateliê Casa Campinas (2025); Mostra Museu, no Museu da Imagem e do Som de Santos-SP e no Pavão Cultural Campinas-SP (2024); Refundação, na Galeria Reocupa (2024) da Ocupação 9 de Julho, em São Paulo-SP; Matéria em movimento, no Espaço Marco do Valle (2022); Depois do fim, no Ateliê Casa Campinas (2021); e Poipoidrome, no Sesc Sorocaba (2015). É professora de Artes Visuais da Escola Comunitária de Campinas, onde atua desde 2009. Do trânsito com estudantes entre a escola e o museu, surge seu interesse pelo Setor Educativo das exposições, onde tem atuado de diversas formas, como coordenadora, educadora e criadora de materiais educativos para diferentes instituições, dentre elas: Bienal Internacional de São Paulo, JA.CA, Centro Cultural Banco do Brasil, MIS Campinas, Acervo Marco do Valle, Casa da Cultura da América Latina da Universidade de Brasília, Casa de Eva e diversas unidades do Sesc São Paulo.



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