Espaços impermanentes. Arte, deslocamento e invenção no interior paulista.
- 30 de jun.
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— Sylvia Werneck
Quando penso no “desenvolvimento” — termo que aqui não se sustenta sem fricção — do interior de São Paulo após a chegada dos europeus às Américas, a ideia de deslocamento se impõe quase como uma camada geológica. O território foi atravessado por sucessivas ondas de mobilidade e violência: as bandeiras que avançavam em busca de metais preciosos e de corpos indígenas a serem capturados e escravizados; o ciclo do café, que redesenhou radicalmente a paisagem com a imposição da monocultura e a implantação de ferrovias voltadas ao escoamento da produção; os fluxos migratórios que substituíram a mão de obra escravizada por trabalhadores europeus, reorganizando demografias e modos de vida.
Antes disso, no entanto, outras rotas já estruturavam o território, como o Caminho do Peabiru (1), e outras formas de habitá-lo eram desenvolvidas por povos indígenas. Os modos de vida dos Tupiniquim, Tupinambá, Guarani, Kaingang e Puris, entre outros, organizavam-se a partir de deslocamentos de outra ordem, vinculados à subsistência, à circularidade e a uma relação não predatória com a terra. Nessas cosmologias, o cultivo (2) — de mandioca, milho, feijão e amendoim — não implicava exaustão do solo, mas manejo e regeneração, em uma lógica que articulava uso, locomoção e preservação. O deslocamento, aqui, não era vetor de exploração, mas condição de equilíbrio.

Essa história, feita de trânsito forçado, exploração e sobreposições, ainda reverbera. O interior paulista carrega, em sua formação, uma lógica de circulação que não se estabiliza plenamente, como se o movimento permanecesse inscrito em sua própria constituição. O deslocamento segue sendo prática cotidiana e necessidade estrutural: circula-se entre cidades para acessar serviços, bens, educação, trabalho e saúde. Em contraste com a capital — essa máquina de concentração que tende a oferecer tudo dentro de seus próprios limites —, o interior opera por lacunas, interdependências e fluxos contínuos. As coisas não estão dadas: constroem-se no movimento, no intervalo, na travessia. Há, nesse regime, uma experiência do espaço marcada por negociações constantes, improvisos e uma percepção mais aguda das distâncias, físicas e simbólicas.
É nesse contexto que a impermanência deixa de ser um acidente e passa a constituir uma condição e, mais do que isso, uma possibilidade crítica. Pensar a produção artística fora da capital implica considerar essa lógica móvel não como déficit, mas como dado constitutivo. Não se trata apenas da ausência de instituições robustas, mas da existência de outros modos de organização, menos fixos, mais porosos, frequentemente ancorados em redes informais, afetivas e em iniciativas autônomas. A arte, nesse cenário, acompanha o ritmo do território: aparece onde é possível, dura o tempo que pode, transforma espaços não dedicados em lugares de experiência e, muitas vezes, desaparece sem deixar vestígios materiais. O que resta, nesses casos, não é o objeto, mas a experiência — aquilo que se inscreve nos corpos, nas relações, nos percursos.
Sempre me interessaram artistas e projetos que se desenvolvem fora do mainstream, que não orbitam o centro nervoso do sistema da arte, mas constroem suas trajetórias em zonas de menor visibilidade. Há, nessas práticas, uma vitalidade específica, menos comprometida com a estabilidade e mais aberta ao risco, ao improviso, à contaminação entre campos. Se na capital a cena tende à especialização e à segmentação — com circuitos relativamente delimitados entre mercado, instituições e espaços independentes —, no interior os diferentes mundos se entrelaçam com mais frequência. Cultura, educação, convivência, turismo, consumo, práticas de cuidado: tudo se atravessa, tudo se contamina. Essa porosidade não apenas amplia os modos de recepção, mas reconfigura a própria ideia de público, que deixa de ser um corpo previamente definido para se constituir na relação, no encontro, na situação.
O projeto Lacração – Territórios, de Bella Tozini, com curadoria de Sylvia Furegatti, oferece uma chave particularmente potente para pensar essas questões. A partir de um trabalho fotográfico centrado em corpos dissidentes (corpos gordos, corpos queer, corpos marcados por cicatrizes ou deficiências), a artista desloca as imagens do ambiente relativamente controlado do livro (3) para o espaço público. Esse gesto implica uma transformação que é, ao mesmo tempo, de suporte, de escala e de regime de visibilidade. As imagens já não são contempladas em condições previsíveis e passam a disputar atenção com a cidade — seus ruídos, seus fluxos, suas urgências, suas indiferenças.


Ao ocupar muros, pontes e outros pontos da paisagem urbana, o projeto instaura um trânsito constante entre dentro e fora, entre arte e cotidiano, entre visibilidade e apagamento. Esse movimento reinscreve os corpos retratados em um campo social que historicamente os marginaliza, tensionando os modos como a cidade organiza aquilo que pode ou não ser visto. Ao circular por cidades como Jundiaí, Campinas e Bragança Paulista, o trabalho cria centralidades provisórias, desloca eixos de atenção, redistribui a possibilidade de encontro com a imagem.
Há também uma dimensão temporal decisiva. As imagens não se fixam: estão sujeitas ao desgaste, à remoção, à sobreposição. Em alguns casos, tornam-se visíveis apenas sob determinadas condições, como a incidência de luz. Essa instabilidade não enfraquece o trabalho; ao contrário, o insere em um registro processual, no qual a obra se desdobra em diferentes momentos, suportes e situações. Conversas, encontros e mapeamentos ampliam esse campo, criando uma rede de relações que ultrapassa a materialidade das imagens e se inscreve na experiência de quem as atravessa.
Se, no caso de Bella Tozini, a cidade é suporte e campo de disputa simbólica, nas ações de Biba Rigo, à frente do Jambo Ateliê, ela se torna também espaço de formação, convivência e partilha. Em Taubaté, suas práticas ativam o espaço urbano como lugar de aprendizagem compartilhada, envolvendo diretamente a população local em atividades que atravessam a arte, mas não se limitam a ela. Oficinas que incluem desenho, pintura, intervenções, mas também o cuidado com plantas ou ações coletivas no espaço público, criam situações de encontro entre pessoas com diferentes repertórios, idades e experiências.
Biba entende as ações no espaço comum da praça como uma continuidade de suas próprias práticas, que frequentemente se desdobram a partir de um primeiro gesto. Ao longo do tempo, percebeu que o envolvimento da comunidade se intensifica por aquilo que chama de “contágio”: ao vê-la desenhando, cuidando de plantas ou da horta comunitária que fundou, as pessoas se sentem convidadas a partilhar conhecimentos, experimentar processos criativos ou simplesmente exercer um cuidado com a praça, devolvendo-lhe a condição de espaço de pausa, troca e convívio.
Esses dois casos, distintos em suas estratégias, convergem na construção de espaços impermanentes, não apenas no sentido físico, mas também relacional e temporal. Espaços que existem enquanto duram as interações que os constituem; espaços que se configuram na ativação, não na permanência. Espaços que dependem menos de infraestrutura estável e mais de disponibilidade, de encontro, de atenção ao território.
Produzir, circular e sustentar arte contemporânea fora da capital continua sendo um desafio. A menor disponibilidade de recursos, a fragilidade das redes institucionais e a distância dos circuitos de legitimação impõem limites reais. E, no entanto, é justamente nesse cenário que emergem formas de invenção que talvez não fossem possíveis em contextos mais estabilizados. A impermanência, longe de ser um obstáculo, pode operar como estratégia: permite testar formatos, ocupar brechas, construir relações mais diretas com o território e instaurar outras temporalidades para a experiência artística.
Talvez seja necessário deslocar também o olhar crítico. Em vez de avaliar essas iniciativas a partir de parâmetros centrados na permanência, na escala e na institucionalização, reconhecer nelas outras formas de consistência. Uma consistência que não se mede pela duração contínua, mas pela intensidade das relações que engendra, pela capacidade de produzir deslocamentos — ainda que sutis — nas formas de ver, de conviver, de habitar o espaço.
No interior paulista, onde a história foi marcada por movimentos de exploração, circulação e transformação radical da paisagem, essas práticas instauram outros modos de presença. Modos que não buscam fixar-se, mas circular; que não pretendem estabilizar, mas ativar; que não aspiram à permanência como valor absoluto, mas à criação de situações significativas. A arte, afinal, também se move — e, ao se mover, redesenha não apenas seus próprios contornos, mas as geografias sensíveis que a tornam possível.

NOTAS
Extensa rede de caminhos pré-coloniais que atravessava o território sul-americano, conectando o litoral (na região da cidade de São Vicente) ao interior do continente, na peruana Cuzco.
Cabe lembrar que a palavra culturae se originou a partir de outro termo latino: colere, que quer dizer “cultivar as plantas” ou “ato de plantar e desenvolver atividades agrícolas”.
Em 2018, a artista lançou o livro Lacração, publicado com apoio do Programa de Ação Cultural – ProAC/SP, de onde se desdobrou o projeto Lacração – Territórios, em 2019 e 2023. ISBN 978-85-455018-0-0
Sylvia Werneck
É crítica de arte, curadora, professora e pesquisadora de arte contemporânea, sobretudo da América Latina. Membro das Associações Brasileira e Internacional de Críticos de Arte (ABCA e AICA), correspondente da Revista ArtNexus, cofundadora e diretora artística do espaçotempo (Itu). É mestre em Estética e História da Arte (PGEHA-USP) e doutora em Comunicação e Cultura (Prolam-USP). Em atividade desde 1998, trabalha como curadora independente desde 2008, em espaços independentes, galerias e instituições como MAC-USP, Mariantonia e Oswald de Andrade (SP), Espaço José Lins do Rego (João Pessoa), Caixa Cultural (Brasília), Pinacoteca de São Bernardo do Campo, entre outras. Ministra cursos livres, mentorias e residências, participa de comissões de seleção e atua como parecerista. Autora de Pensamentos sobre arte (Alter Edições, 2023, ProAC 2021) e De dentro para fora – a memória do local no mundo global (Ed. Zouk, 2011, Prêmio Publicações sobre Arte da Bienal de São Paulo). Indicada ao Prêmio ABCA por sua atuação como crítica em 2024, recebeu Menção Honrosa.



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