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As donas das ruas: “Graffito, logo posso ser livre”

  • 22 de jun.
  • 9 min de leitura

Ketty Valencio


Pelas encruzilhadas da vida e da arte, peço licença às entidades; entre exus, pombagiras, a malandragem e o povo da rua. Quero exaltar a ancestralidade negra, por meio de artistas pretas — as grafiteiras — que colorem a cidade, o bairro e onde o concreto e o limite se expandem como os contornos das casas, dos arranha-céus, das avenidas, das ruas e das vielas. Mas, se voltarmos ao Brasil Colônia, aquelas ruas não eram um ambiente permitido para as mulheres. Apesar disso, eram espaços liberados para algumas pessoas que tinham a pele melanizada; na maioria das vezes, pessoas escravizadas, libertas ou livres. No entanto, há personagens extremamente importantes nesse período, que são conhecidas como “as ganhadeiras”. Elas foram fundamentais na economia urbana das cidades: com seus balangandãs, trabalhavam nas ruas vendendo quitutes, lavando roupas, carregando mercadorias ou prestando serviços, com o objetivo de obter o seu próprio sustento e/ou de financiar a sua alforria e a de terceiros. Elas eram empreendedoras natas e espectadoras do cotidiano de uma sociedade que as bania. Dessa forma traficavam informações e foram facilitadoras da emancipação da população negra brasileira, sendo as heroínas do invisível. Quando vejo pelas ruas uma pessoa preta, principalmente mulheres pretas fazendo seu corre, pintando com um spray ou pincel, avisto as ganhadeiras retornando dentro delas e me lembro de trechos do poema Ressurgir das cinzas, da poeta, jornalista e ativista Esmeralda Ribeiro (2004):


Sou forte, sou guerreira, tenho nas veias sangue de ancestrais. Levo a vida num ritmo de poema-canção, mesmo que haja versos assimétricos, mesmo que rabisquem, às vezes, a poesia do meu ser. Mesmo assim, tenho este mantra em meu coração: “Nunca me verás caída ao chão”. Sou destemida, herança de ancestrais, não haja linha invisível entre nós meus passos e espaços estão contidos num infinito túnel, mesmo tendo na lembrança jovens e parentes que, diante da batalha, deixaram a talha da vida se quebrar, mesmo tendo saudade cultivada no portão. Mesmo assim, tenho este mantra em meu coração: “Nunca me verás caída ao chão”. Sou guerreira como Luiza Mahin, sou inteligente como Lélia Gonzalez, sou entusiasta como Carolina de Jesus, ou contemporânea como Firmina dos Reis, sou herança de tantas outras ancestrais. E, com isso, despertam ciúmes daqui e de lá, mesmo com seus falsos poderes tentem me aniquilar, mesmo que aos pés de Ogum coloquem espada da injustiça. Mesmo assim, tenho este mantra em meu coração: “Nunca me verás caída ao chão" [...]

ISSA LUZ


Issa Luz - Graffti


Cada vez mais mulheres pretas, pardas e periféricas estão levando sua arte para as ruas, unindo-a ao seu cotidiano — mulheres mães, mulheres avós, mulheres autônomas — ou conciliando com um outro emprego. Para algumas, o Graffiti é uma ação que pode gerar renda e uma carreira artística; mas, para muitas, é um ato de sobrevivência. Elas são pessoas plurais, com trajetórias diferentes e que levam a vida de maneiras distintas. Infelizmente, o que as une, na maioria das vezes, são as opressões sociais, que resultam no apagamento histórico. Ainda assim, estão lá, subvertendo a ordem e, dessa maneira, cito aqui a frase da poeta Luz Ribeiro (2018): “não estou nos livros, por isso pinto a história”. Desse modo, sua política se realiza por meio da presença e da produção artística. Às vezes, o reconhecimento vem tardiamente e, quando vem, não reconhece o brilhantismo de sua arte, mas apenas o que seu corpo representa. E a partir desse encontro, o texto se abre para outras vozes — artistas que têm sua arte como sinônimo de liberdade e de existência. Neste momento, os relatos são apresentados em primeira pessoa, e as mulheres convidadas tornam-se as protagonistas das suas narrativas — são elas que contam suas histórias. A organização segue a alfabética, e cada pessoa grafiteira em destaque representa apenas a sua subjetividade.



Me chamo Issa Luz e, no Graffiti, sou reconhecida como Tebla. Tenho 28 anos. Nasci na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, mas atualmente vivo no subúrbio da cidade. Sou formada em Artes Visuais pela UFRJ; também sou grafiteira, faço algumas produções culturais e vivo da arte. Sempre convivi com a arte, desde a infância. Em 2016, iniciei na pintura e, em 2018, tive meu primeiro contato com o Graffiti. Embora seja uma arte acessível, o Graffiti é um meio muito machista. Então, se firmar entre tantos homens que desqualificam o trabalho feminino é um desafio, mas fui me aperfeiçoando e fazendo as conexões certas, e isso tem aberto os meus caminhos. Nos meus trabalhos, falo sobre o que me representa. Procuro trazer inspiração para quem observa a arte e crio um “espelho” para que a comunidade se veja e se reconheça. Pinto figuras e símbolos que falam sobre memória, cuidado, resistência, ancestralidade e negritude, porque acredito que, através disso, posso fortalecer quem somos e preservar os saberes de quem veio muito antes de nós. Hoje, vemos muitos espaços sendo embranquecidos e transformados em produto pelo capitalismo, e o Graffiti sendo absorvido apenas como estética, sem ressaltar a história e as pessoas que deram origem a essa linguagem. Por isso, estar pintando pelas ruas e comunidades é também um gesto político, para lembrar que os territórios têm histórias, que a cultura tem história e tem berço. Nós devemos ocupar, narrar e perpetuar nossas vivências nos muros das cidades.



TAMI SILVA



Tami Silva - Graffti
Tami Silva - Graffti












Meu nome é Tamires, e sou mais conhecida como Tami Silva. Tenho 28 anos, moro na Zona Norte de São Paulo. Sou neta de Gendina e Roque Grande, e filha de Maria do Carmo, todos da Bahia, de Santo Estêvão e Senhor do Bonfim. Eu me descrevo como uma artista curiosa, que trabalha com diferentes linguagens ancestrais e tecnológicas. Uma dessas tecnologias é o crochê; também trabalho com o digital, a ilustração e a animação, além das artes plásticas. Em meu processo, gosto de retratar pessoas pretas em suas passagens de conhecimento no cotidiano, entendendo que são nos atos simples que vamos transmitindo nossas vivências. Carregamos muitas histórias. Mesmo que não conheçamos totalmente nossos ancestrais, a partir do momento em que trazemos essas passagens de conhecimento, isso influi no nosso futuro e no daqueles que estão por vir. Meu trabalho fala sobre isso. Tenho trabalhado majoritariamente com o crochê como uma poética de pensar em pontos que se ligam, se amarram e constroem algo que não acaba. Sempre existe uma linha de onde podemos começar; não de forma linear, mas é com essa linha que criamos outras possibilidades. Sou arte-educadora e trabalho com a ideia de um laboratório de experimentação chamado Mini Studin, projeto que criei em 2023 como forma de compartilhar conhecimentos de animação digital e tradicional, trazendo imaginários e possibilidades para crianças e adolescentes. Atualmente, trabalho no programa Fábrica de Cultura, em que também com - partilho parte desses saberes. Estou na fase de construção do Ateliê Dengo, que venho desenvolvendo aos poucos para se tornar um espaço mais amplo e aberto dentro da minha comunidade. Ainda é um processo de entendimento desse espaço. Minha trajetória na arte começa na infância, quando tive contato com experimentações artísticas, e se fortalece ao longo do tempo. Em 2014, iniciei no Graffiti, que ampliou meu olhar para o território e para a construção de identidade. A partir do Graffiti, começo também a pensar na minha persona. Dentro do meu processo digital, criei a personagem AKOMA. Ela fala sobre ancestralidade sob uma cosmologia de entendimento de si. Através desse imaginário, busco experimentações e formas de me encontrar. Minha avó faleceu quando minha mãe nasceu, então parte dessa história não chegou até mim. Meu avô criou minha mãe e mais 14 filhos na área rural da Bahia (4 do primeiro casamento com minha avó, 3 do segundo e 7 do último casamento). Sempre me pergunto como ele conseguiu construir essa memória e criar esses filhos com o todo carinho possível, dentro de um contexto de muita escassez. Com AKOMA, venho tentando criar essa memória viva. Esse é um interesse meu: a transmissão de conhecimento e a construção da memória. Minhas telas se tornam esse lugar da anamnese e do processo. Penso que temos muitas imagens que constroem memórias coloniais, mas, quando pensamos nas pessoas pretas que vieram para o Brasil, a maioria das imagens que temos é de pessoas escravizadas. Então, penso em produzir memória para a posteridade. Atualmente, estou participando da exposição Funk: um Grito liberdade, no Museu da Língua Portuguesa. Esse processo foi um desdobramento do edital Funk Arte e Resist ência, uma residência em que precisávamos falar sobre o funk. Partindo do meu lugar, como pessoa da Zona Norte de São Paulo, onde o funk está presente nas festas de família e no cotidiano, comecei a pensar o boné de crochê como passagem de conhecimento e como símbolo de reconheci - mento de onde a gente vem. O boné de crochê tem origem também no sistema carcerário, como forma de atividade, e depois vai para as ruas e para as periferias de São Paulo. Lembro a minha infância marcada por esse objeto. Mulheres e homens faziam esses bonés para vender. Em muitos lugares, quando usávamos o boné de crochê, éramos olhados com discriminação porque sabiam de onde está - vamos vindo. Quando trato dessa passagem de conhecimento, é sobre saber de onde a gente vem. Por isso coloco “DAMAS” no boné. DAMAS significa de onde eu venho, quem eu sou e de que forma conduzo isso. Estou passando esse conhecimento a partir dessa memória. Acredito que meu trabalho segue nessa direção. Ainda estou adquirindo conhecimentos, me entendendo e aprendendo artisticamente com o meu trabalho.


VIVI


Vivi - Graffti


Me chamo Francisca Viviane Lima Dias, sou natural de Fortaleza, Ceará. Sou conhecida como Vivi. Minha paixão pelo Graffiti se iniciou em 2005, mas só fui começar a pintar em 2006. Esse período de um ano, “namorando” o Graffiti, foi de muito aprendizado. Conheci o Graffiti e o Hip Hop através do Milson, que na época era meu namorado e, atualmente, é meu esposo, e também através do Tubarão. Nossos domingos eram bastante agitados, sempre em um lugar diferente da cidade — eles colorindo os muros, e eu fotografando cada momento. Passei um ano acompanhando de perto os primeiros passos da VTS Crew, cada rolê, cada encontro com a galera. Nesse mesmo período, Mils e Tubarão sempre pediam ajuda para grafitar. Essa foi a forma que eles encontraram para me viciar neste mundo. Mas foi quando conheci a grafiteira Heteia Braga Ramos (in memoriam), conhecida como Teia, a pioneira no Graffiti feminino de Fortaleza, que me entusiasmei para pintar. Ela era a única mulher na cena, sempre muito prestativa e com seu sorriso no rosto, estava sempre disposta a aumentar a cena feminina em nossa cidade. Então, em 2006 comecei realmente a grafitar e foi quando se iniciou a minha história dentro da VTS Crew. Me recordo como se fosse hoje dos meninos falando sobre o quanto era importante a minha chegada no mundo do Graffiti, não só para a VTS Crew, mas também para a cena local. Comecei fazendo personagens e, pouco tempo depois, junto com a Teia, Ane e outras grafiteiras, fundamos a primeira crew feminina do estado, a qual não durou por muito tempo, mas foi de extrema importância para nós. Como estava dizendo, iniciei tentando fazer personagens, mas, no fundo, não me sentia muito realizada até começar a fazer letras: o wildstyle é a minha verdadeira paixão. Eu amava sair para pintar a ciclovia da Avenida Bernardo Manoel, para testar as minhas letras. Sempre saía com Mils e Tubarão, todos muito felizes, com várias garrafas de látex e um spray para contorno para dividir entre nós três. Isso aconteceu no tempo em que não existiam tintas específicas para Graffiti e nós não tínhamos muitos recursos. Eram tempos difíceis, mas felizes. No começo, eu fazia minhas letras com 3 a 4 cores, no máximo, o famoso degradê. Alguns anos depois, consegui estabelecer minha própria identidade no Graffiti: minhas letras são identificadas por serem bastante coloridas, com no mínimo 6 cores, e com muitas formas geométricas dentro dela. Nesses meus longos 20 anos de Graffiti, essa arte já me proporcionou vários momentos incríveis. Também me proporcionou amizades tão verdadeiras que hoje sou madrinha de dois filhos de amigos grafiteiros. Fora o Graffiti em comum, agora somos uma família. É, o Graffiti vai muito além de só pintar um muro, vai muito além das ruas. Nesse período, conquistamos o fortalecimento da cena feminina no Ceará, que hoje em dia já foi até reconhecida pela Câmara Municipal de Fortaleza, que discute um projeto de lei para comemorar o Dia do Graffiti em Fortaleza, em memória da Teia. O Graffiti me possibilitou conhecer vários lugares e culturas do meu Brasil. Já participei de vários encontros, tanto aqui em Fortaleza como em outras cidades, como Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Hoje não imagino minha vida sem o Graffiti, pois sou grafiteira, tenho uma loja onde trabalho com o que gosto, o Graffiti, sou casada com quem entende esse meu mundo, um grafiteiro, e faço parte de uma crew que, para além de um grupo de pessoas, é uma família. Sou, sim, viciada em tinta spray, e esse é meu estilo de vida.


ZICRA



Zicra - Graffti

Meu nome é Monique, popularmente conhecida como Zicra. Me descrevo como uma jovem multiartista da Brasilândia, um bairro que fica na Zona Norte de São Paulo. Comecei a fazer Graffiti em 2016 e hoje atuo como arte-educadora, com o intuito de passar a perspectiva da arte urbana adiante. Nas oficinas que administro, ensino técnicas de pintura, criação de nome artístico, letras, entre outros aspectos da arte urbana. Também sou DJ, artesã e costureira. O Graffiti é uma das principais formas de me expressar enquanto artista. Eu tive o primeiro contato com ele por meio de trilhas formativas das Fábricas de Cultura. Dessa forma, encontrei na tinta spray a minha zona de conforto. Assim, fui reconhecida pela minha arte, através dos meus personagens, que possuem traços negroides e que enaltecem as mulheres negras. A partir daí, passei a ser convidada para diversos eventos, como live painting e outros.










Ketty Valencio


Nascida e criada na Zona Norte de São Paulo - SP. Filha de Marta e de Jonas. Bibliotecária, livreira, pesquisadora, entre tantas outras coisas. É proprietária da Livraria Africanidades, um empreendimento de pequeno porte que possui loja física e virtual, com o acervo especializado em narrativas pretas, principalmente protagonizadas por mulheres pretas.


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